Na missa do Domingo de Ramos, ouvimos a passagem bíblica que descreve a chegada de Jesus em Jerusalém. Como se sabe, Jesus adentrou a Cidade Santa montado em um jumentinho. Ali foi aclamado pela multidão:

"Bendito o Rei, que vem em nome do Senhor!"

Imagem ilustrativa da imagem Elogio do Burro
| Foto: Shutterstock

O jumentinho em que Jesus montou antes da entrada em Jerusalém fora buscado por dois discípulos em um povoado próximo ao Monte das Oliveiras. Jesus dera aos dois discípulos uma orientação bastante precisa: eles encontrariam o animal amarrado na entrada do lugar e o desamarrariam. Quando os donos do animal perguntassem por que estavam fazendo isso, eles responderiam: "O Senhor precisa dele".

"O Senhor precisa dele." Tenho por hábito me colocar no lugar dos pequenos personagens do Evangelho. Fico imaginando o que teria se passado pela mente do proprietário do animal diante dessa misteriosa frase. O Senhor precisa dele -- para salvar o Universo.

Enquanto Jesus entrava em Jesus entrava em Jerusalém, o povo ia estendendo mantos ao longo do caminho. Os mais pobres, porém, não tinham mantos para estender, então usavam os ramos das plantas que estivessem à mão. Tristeza: muitos desses adoradores prefeririam libertar Barrabás e condenar

Jesus quatro dias depois, tudo porque Jesus não era o tipo de rei que eles esperavam.

Qual teria sido o destino do burrinho emprestado por Jesus para entrar em Jerusalém? Teria sido devolvido aos donos? É provável que sim. Mas saberiam, esses donos, que o animal havia conduzido o próprio Salvador? São dúvidas que só poderei esclarecer quando conseguir falar com Deus.


Há alguns anos li um livro pequeno mas precioso, intitulado "Elogio do Burro", do célebre escritor e diplomata J. O. de Meira Penna (1917-2017). A obra não faz um elogio à burrice, mas sim uma espécie de desagravo literário a esse simpático animal. Meira Penna, com magnífica inteligência e erudição, demonstra que o burro, ao longo da história, simboliza a humildade, a persistência, o sacrifício e a inocência.

Na obra, Meira Penna observa que uma das primeiras imagens pictóricas do cristianismo é uma blasfêmia que envolve o burro. Trata-se do "Grafite do Palatino", também conhecido como "Grafite de Alexamenos", provavelmente do século II d.C.

O grafite, encontrado numa das colinas de Roma, traz a imagem de um burro sendo crucificado, tendo aos seus pés um adorador. Embaixo do desenho lê-se em grego a frase: "Alexamenos adorando o seu deus". Em umaparede próxima, com outra grafia, está a provável resposta do cristão aos escarnecedores: "Alexamenos é fiel".

Encerro estas reflexões e começo esta Semana Santa com um poema do grande escritor católico G. K. Chesterton, traduzido magistralmente pelo professor Sérgio Pachá:

Quando os peixes voavam e as florestas

Moviam-se e espinheiros davam figos,

Num momento em que a lua era de sangue,

Eu decerto nasci: tempos antigos.

Com uma cabeça enorme e um grito ascoso

E orelhas – duas asas aberrantes –,

Sou a paródia mesma do demônio

Por entre todos mais quadrupedantes.

A andrajosa escumalha deste mundo,

Cuja perversidade não tem fim,

Escarnece-me, bate-me, esfomeia-me,

E eu guardo o meu segredo para mim.

Estultos! Eu também tive uma hora,

Distante e doce e minha – uma hora ardente:

Bradava a multidão à minha volta

E espalhava-me palmas pela frente.

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