Elogio da bondade
Faça da bondade o sentido de sua vida e um dia, inesperadamente, você será feliz
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de abril de 2019
Faça da bondade o sentido de sua vida e um dia, inesperadamente, você será feliz
Paulo Briguet 

1. O importante não é ser feliz, o importante é ser bom. Quando Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz, escreveu o clássico “Em Busca de Sentido”, ressaltou que a bondade humana resiste aos piores tipos de sofrimento. Na porta da câmara de gás, muitos judeus e cristãos cantavam o “Shemá Israel” ou rezavam o “Pai Nosso” com idêntico fervor, da mesma forma que Jesus perdoava seus algozes dependurado na cruz. A busca da felicidade pode levar aos piores crimes; a busca da bondade, jamais. Faça da bondade o sentido de sua vida e um dia, inesperadamente, você sentirá algo muito próximo à felicidade.
2. A bondade é, em si, um paradoxo: liberta e cativa ao mesmo tempo. Ela dá de comer aos famintos, dá de beber aos sedentos, veste os nus, acolhe os peregrinos, visita os doentes, visita os presos, enterra os mortos. A bondade dá bom conselho, ensina os ignorantes, corrige os que pecam, consola os aflitos, perdoa as ofensas, suporta com paciência as fraquezas do próximo.
3. Reza muito, a bondade. Reza o tempo todo. Se você olhar para a bondade agora, verá que ela está envolvida em algum tipo de oração, ainda que silenciosa. A bondade ora pelos vivos e pelos mortos; pelos amigos e inimigos; pelos crentes e pelos ateus. A bondade não divide, une. No entanto, a bondade é guerreira. Ela sabe que toda paz deve ser conquistada através de luta e trabalho. A bondade acorda cedo, dorme tarde e entre um momento e outro trava todos os tipos de batalhas imagináveis.
4. A bondade, como todos nós, tem 33 vértebras: o mesmo número da idade de Cristo. Portanto, ela carrega a própria cruz. E a cruz é a nossa multidão de crimes e pecados. Erramos muito acreditar que estamos sendo bons, quando na verdade estamos apenas tentando ser felizes.
5. Nunca se deve esquecer que o diabo é um anjo. A sua principal estratégia consiste em fazer uma imitação caricatural de Deus. Da mesma forma, o pecado se disfarça de bondade para enganar os incautos. Mas há um modo de desmascarar o mal disfarçado de bem: pergunte a si mesmo se você está fazendo o mesmo que Jesus faria. Se a resposta for sim, é bondade. Se a resposta for não, é pecado.
6. Santo Agostinho dizia que o amor ao próximo constitui a base de toda a sociedade humana. Retire-se o amor ao próximo, e todo o edifício civilizatório desmorona. Ser bom, portanto, é servir ao outro, é deixar de ser idiota (ou seja, aquele que só pensa em si mesmo e nunca abandona a autocondescendência).
7. Por último, mas não menos importante, devemos lembrar que a bondade não está sozinha. Da mesma forma que Deus é um convívio — Pai, Filho e Espírito Santo —, a bondade sempre anda acompanhada de suas irmãs: a verdade e a beleza. Se uma delas está ausente, as outras também estão. Por isso, não busque a bondade onde imperam a mentira e o grotesco. Busque as três irmãs, como quem busca a constelação das Três Marias no céu.


