Diário de um pária
A vida de um professor que ousou contrariar a vontade da militância esquerdista na universidade
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quinta-feira, 11 de abril de 2019
A vida de um professor que ousou contrariar a vontade da militância esquerdista na universidade
Paulo Briguet 

Faz 40 anos, mas eu nunca me esquecerei do dia em que dei as costas ao Marcelo. Lembro-me da cena com muita nitidez: na entrada do bar do DCE, senti o toque de mão de alguém no meu ombro esquerdo. Marcelo estava com a barba crescida e havia emagrecido muito, de modo que as pontas dos ossos malares se destacavam em seu rosto. Com um olhar de súplica, levantou a mão direita e abriu a boca para dizer alguma coisa, mas eu não o deixei emitir uma só palavra. Virei-lhe as costas e caminhei com passo seguro, nem lento nem rápido, para o balcão, onde pedi uma catuaba. Nunca mais o vi.
Marcelo havia sido expulso do partido depois de um julgamento interno à revelia. Os motivos oficiais de seu expurgo foram traição e roubo; na verdade, todos sabíamos que o verdadeiro motivo fora um comentário crítico a Carlos Lamarca, numa reunião de célula. Marcelo ousara questionar o justiçamento do tenente Alberto Mendes Júnior. “Nós temos as mãos sujas de sangue”, disse ele.
Dizem que Marcelo virou mendigo e desapareceu para sempre nos viadutos de São Paulo. Sempre que vou a São Paulo, lanço um olhar para os mendigos do centro, cada vez mais numerosos, na secreta esperança de encontrar meu ex-companheiro.
Minha vida não tem sido fácil aqui na universidade. Desde que abandonei o partido, já era alvo de críticas, mas a minha decisão de apoiar aquele candidato do qual não se pronuncia o nome transformou-me em pária.
Caminhando pelo campus, eu me sinto hoje como um judeu na Alemanha dos anos 30. Alunos e professores me olham com ódio e desprezo; amigos de muitos anos deixaram de falar comigo; passei a ser atacado sistematicamente nas reuniões de departamento, sem que ninguém se levante em minha defesa. Uma colega foi duramente criticada pelo simples fato de que não me negou boa-tarde. Estou esperando o dia em que vão colar uma estrela amarela na minha camisa.
Dias atrás, publiquei um texto na rede social, que recebeu 470 comentários, dos quais 469 continham ataques à minha pessoa, quase sempre incluindo as expressões “fascista” e “mau caráter”. Apenas uma aluna, da pós-graduação, ousou me defender. Pois justamente essa aluna perdeu a sua orientação de mestrado.
Durante uma aula, em meio a pesado silêncio de 20 rostos fechados, uma aluna sorriu para mim. Depois, pela rede social, enviei-lhe uma inocente mensagem de agradecimento. Resultado: ela ameaçou me processar por assédio sexual. No mesmo dia, uma amiga de 30 anos virou-me as costas. Exatamente como eu fiz com Marcelo naquele dia.
Em casa, à noite, fiz algo que, por medo, jamais costumava fazer na infância: olhei para o espelho no escuro. Ali vi os rostos de meu pai, minha mãe, meu avô veterano de guerra. Depois, notei a presença um senhor idoso: era o capitão Alberto Mendes Júnior, caso não tivesse morrido. Tomei um fôlego, acendi a luz, passei a mão pela barba crescida sobre o rosto ossudo e disse:
— Perdão, Marcelo.


