Desmontando a Árvore de Natal
Que o ouro se torne incenso, e o incenso se torne mirra, e a mirra se torne ouro, até a consumação final em Cristo
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terça-feira, 07 de janeiro de 2020
Que o ouro se torne incenso, e o incenso se torne mirra, e a mirra se torne ouro, até a consumação final em Cristo
Paulo Briguet 
Passou o Dia de Reis, meu filho; é chegada a hora de desmontar a Árvore de Natal. O Menino já nasceu e foi colocado na manjedoura; já vieram os anjos e os pastorzinhos dos campos de Belém; já vieram os magos do Oriente, seguindo uma estrela andante; até os animais — o burrinho, a vaca e a ovelha — se puseram a adorá-Lo. Dispersaram-se aqueles que, seguindo as ordens do César, vieram para o censo; portanto, as hospedarias e as casas não estão mais cheias. Mas quem poderia querer melhor pousada do que esta simples gruta onde nasceu o próprio Deus?

Não fique triste, meu filho. Eis que os magos — esses que chamamos reis, não pelo poder, mas pela sabedoria — deixaram-nos três presentes: ouro, incenso e mirra. Esse ouro simboliza a realeza; contudo, o reino do Menino não é deste mundo. Como todo ouro, ele só pôde ser obtido à custa de imensos sacrifícios, pois apenas o fogo tem a capacidade de separá-lo dos outros elementos e das impurezas. Esse incenso não é um simples perfume; é a marca da Presença maior que todas as presenças, que nossos irmãos mais velhos denominam Shekhinah. Essa mirra, meu filho, alguns diriam que representa apenas a nossa morte. Mas ela possui um segredo que mesmo as mirras dos faraós não traziam: a morte da morte, que chamamos ressurreição.
Quando desmontamos a Árvore de Natal, estamos na verdade pedindo a Deus que realize a eterna alquimia entre os presentes dos magos. Que o ouro se torne incenso, e que o incenso se torne mirra, e que a mirra se torne ouro, até a consumação final de todos os elementos em Cristo. Assim nós também podemos nos transformar em algo muito além do que somos.
Maria e José, avisados pelo anjo, daqui a pouco já estarão a caminho do Egito, porque Herodes quer matar o Menino. Furioso, ele descontará seu ódio impotente nas vidas das outras criancinhas, passadas ao fio da espada. Até hoje é assim: os herdeiros de Herodes ainda querem matar as crianças, se possível no ventre de suas mães. A diferença é que agora eles tentam convencê-las de que isso é uma bela coisa.
Pode parecer, meu filho, que as luzes de Natal se apagam agora, por estarmos desmontando a Árvore. No entanto, é algo diferente que se passa. Essas luzes que aparentemente se apagam — seu avô Paulo, sua avó Aracy, meu bisavô Antônio, as personagens dos velhos Natais, nossos antepassados e até as criancinhas que morreram antes de nascer —, na verdade se acendem em outro lugar, um lugar chamado Céu, onde o Natal e a Páscoa acontecem simultaneamente, misteriosamente, eternamente.
Eis que desmontamos a Árvore de Natal, meu filho. Mas isso significa apenas que o nosso dever, agora, é cultivar a Árvore da Vida.


