De volta a Chernobyl
Minissérie e livro contam a história do desastre nuclear que também é uma parábola do nosso tempo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de maio de 2019
Minissérie e livro contam a história do desastre nuclear que também é uma parábola do nosso tempo
Paulo Briguet 

Nesta semana comecei a ver, com muito interesse, a minissérie “Chernobyl”. Em cinco episódios, a produção da HBO conta a história do maior desastre nuclear de todos os tempos. Diante das cenas da tragédia atômica, lembrei o impacto que me provocou a leitura de “Vozes de Tchernóbil”, obra da escritora e jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015.
No dia 26 de abril de 1986, à 1h23min58s, iniciou-se uma série de explosões que destruíram o reator da Central Elétrica Atômica de Chernobyl (Tchernóbil), na cidade de Pripyat, ao Norte da Ucrânia, perto da fronteira com a Bielorrússia. Ambos os países e a usina nuclear pertenciam à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Minutos antes do desastre, o operador Leonid Toptunóv apertou o botão vermelho de emergência. Dele restaria um único ponto livre de radiação, nas costas. Foi enterrado em um ataúde forrado por dentro com várias camadas de papel de estanho, e sobre o ataúde colocaram um metro e meio de pranchas de concreto com placas de chumbo. “Ele era apenas um operador, e o sepultaram como se fosse um extraterrestre”, disse um de seus colegas militares.
“Vozes de Tchernóbil” é uma espécie de romance-oratório percorrido por inúmeras vozes das vítimas do desastre nuclear, que em muito se assemelha ao desastre social e ideológico do comunismo. Não por acaso, o desastre de Chernobyl e a dissolução da URSS foram separados por exatamente cinco anos: de 1986 a 1991, o império de Lênin ruiu.
A pequena e desconhecida Bielorrússia foi a mais afetada pelo holocausto nuclear. Para dar uma dimensão do golpe no país, a autora informa que 23% do território da Bielorrússia (atual Belarus) foi contaminado por Chernobyl; a Ucrânia teve atingida 4,8% de sua área; a Rússia, 0,5%. Na Segunda Guerra Mundial, morreu um em cada quatro bielorrussos; hoje, um em cada cinco habitantes do país vive em áreas contaminadas. Os nazistas destruíram 619 aldeias do país; com Chernobyl, foram perdidas 485 aldeias, das quais 70 foram sepultadas debaixo da terra para sempre. Antes do desastre nuclear, havia 82 casos de câncer para cada 100 mil habitantes; hoje, nas regiões atingidas, são 6 mil por 100 mil. Em locais próximos de Pripyat — hoje uma cidade-fantasma — sete em cada dez pessoas estão doentes. As mortes superam os nascimentos em 20%.
O grande mérito de Svetlana Aleksiévitch é narrar todo esse drama de maneira sensível e autêntica, sem jamais perder de vista a combinação entre beleza e verdade. O resultado é sinfônico, polifônico, digno da melhor tradição da literatura russa nos séculos XIX e XX: Tolstói, Dostoiévski, Tchekhov, Pasternak, Akhmátova, Soljenítsin.
Em 1917, meses antes do golpe comunista, Nossa Senhora de Fátima disse a três pastorzinhos portugueses: “Os erros da Rússia se espalharão pelo mundo”. Trinta e três anos depois de Chernobyl, o povo bielorrusso ainda convive com as feridas do holocausto nuclear. Enquanto isso, no mundo inteiro, o poder do mal se infiltra nos países e culturas mais diversos, muitas vezes de forma invisível e deletéria, como a radiação nuclear. Escutar as vozes de Chernobyl pode ser um exercício para escutar a nossa própria voz.


