A sociedade humana foi fundada sobre um ato de inveja. Mas nós agora temos uma chance de escapar a essa maldição Complexo de Caim Todos conhecem a história bíblica de Caim e Abel, filhos de Adão e Eva. Segundo o Livro do Gênesis, Abel era pastor de ovelhas; Caim, lavrador. Certo dia, os dois irmãos ofereceram a Deus seus sacrifícios. Caim ofereceu os frutos da terra; Abel, as primícias de seu rebanho. Mas Deus se agradou apenas do sacrifício de Abel. O professor José Monir Nasser, em sua análise do Gênesis, comenta: “Por que Deus gosta mais dos carneirinhos de Abel do que das coisas plantadas por Caim? Porque Abel oferece o sacrifício de sangue, mais poderoso, profundo e denso que o sacrifício das coisas plantadas”.

Imagem ilustrativa da imagem Complexo de Caim
| Foto: Peter Paul Rubens (1608-1609)/Domínio Público

Todos também sabem o que acontece em seguida: Caim enche-se de inveja e ressentimento contra Deus. Traiçoeiramente, convida o irmão para um passeio no campo e o mata.

O que pouca gente lembra é o resto da história. Depois de ser desmascarado por Deus — “A voz do sangue do teu irmão clama desde a terra até mim” —, Caim é condenado a perambular sobre a terra. Conhece então uma mulher (cujo nome não é mencionado), tem um filho, Enoc, e funda a primeira cidade, a primeira pólis.

Isso quer dizer o seguinte, meus amigos: a sociedade humana é fundada sobre um ato de inveja. Note-se que Caim jamais pede perdão a Deus por seu pecado — “O meu crime é grande demais para alcançar dele perdão”, diz o filho mais velho de Adão. Assim como Judas, Caim não se arrepende diante de Deus, e este é o cerne da sua tragédia.

De certa forma, todos nós, que vivemos em sociedade, somos herdeiros do crime de Caim. Em decorrência disso, a história humana é marcada por traição, inveja, mentira e assassinato. Como escreveu o psicanalista húngaro Leopold Szondi, “ao longo de milhares de anos, não diminui a atividade assassina de Caim. O fratricídio é infinito”.

A única forma que temos para escapar da maldição de Caim é seguir aquele que veio resgatar os homens e pagar a nossa incalculável dívida de sangue: Nosso Senhor Jesus Cristo. O morticínio cainita não cessa, mas, após a encarnação do Verbo, temos a esperança de obter o perdão, mesmo submersos no mar de mentira, crime e pecado que é a sociedade humana.

Durante muito tempo, eu me perguntei por que a festa de Santo Estevão, o primeiro mártir do cristianismo, cuja morte por apedrejamento está descrita no Livro dos Atos, era comemorada justamente um dia após o Natal, em 26 de dezembro. Hoje, penso que o significado é muito claro: o nascimento de Jesus não faz cessar a atividade do mal, mas aponta para uma realidade muito superior ao mundo. Foi exatamente por isso que Estevão disse, ao ser apedrejado: “Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus”.

No Gênesis, Deus leva sete dias para criar o mundo. Nestes sete dias que separam o Natal e o Ano Novo, façamos tudo para superar o que há de Caim dentro de nós, e cultivar o que há de Jesus Cristo.

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