Imagem ilustrativa da imagem Como me tornei conservadora (1)
| Foto: Acervo pessoal

Nesta semana a Avenida Paraná abre espaço para mulheres que desafiam a hegemonia esquerdista nas universidades. Na terça-feira, foi a climatologista Deise Ely, coordenadora do LabClima da UEL, que contestou a utilização política dos fenômenos climáticos e naturais. O sucesso foi tão grande que até o site Antagonista compartilhou o texto. Hoje e amanhã, eu gostaria de compartilhar com vocês um belo depoimento da professora Aline Loretto, formada em História pela UEL, em que ela descreve sua adesão às ideias conservadoras. Como se trata de um texto mais longo, optei por publicá-lo em duas partes.

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“Contarei minha trajetória como aluna do curso de História de uma universidade pública brasileira e como acordei do sono esquerdista com uma guinada conservadora.

Em 2001, ingressei no curso de História da Universidade Estadual de Londrina. Havia então uma divisão, clássica, do saber historiográfico. No primeiro ano, estudávamos História do Brasil, História Antiga, História Medieval, Introdução aos Estudos Históricos e Antropologia.

No início da graduação, na disciplina de História do Brasil, foi apresentado um bastião da esquerda brasileira: Caio Prado Júnior, historiador paulista filiado ao PCB, de uma rica família aristocrática, que rompeu com sua “classe” e se tornou um intelectual orgânico do proletariado brasileiro. Seu livro “A Evolução Política do Brasil” é considerado a primeira tentativa de interpretar a história política e social do país à luz do materialismo dialético.

Lembro da idolatria com que a professora apresentava seu pensamento. Caio Prado teria “redescoberto o Brasil’’. Algumas passagens de suas obras, como as que defendem que a sociedade brasileira colonial é um reflexo de sua base material, e que nossas classes sociais serviriam, da Colônia à contemporaneidade, para sustentar as elites, eram ovacionadas em sala de aula. Caio Prado passou a representar o “bem” contra o “mal’’ (Gilberto Freyre e suas análises “culturalistas”).

Nas aulas de História Antiga e de História Medieval, as leituras obrigatórias giravam em torno dos livros do historiador marxista inglês Perry Anderson. Além dele, Eric Hobsbawm e Edward Palmer Thompson formavam a “fina flor da historiografia marxista anglofônica’’. Era natural que meu professor os venerasse.

Durante o primeiro semestre de 2001, lemos “Passagens da Antiguidade para o Feudalismo”; no segundo semestre, “Linhagens do Estado Absolutista”. A tese de Perry Anderson em ambos os trabalhos é a mesma: o Estado absolutista se formou como reação ao medo que a nobreza passou a sentir dos camponeses após estes organizarem uma série de revoltas. O fato de Anderson escrever mal e afirmar que não utilizou fontes primárias era irrelevante.

Nas aulas de Introdução aos Estudos Históricos, aprendemos a usar conceitos básicos do materialismo dialético: “lumpemproletariado”, “luta de classes”, “mais-valia”, “intelectual orgânico”, “modo de produção”, “alienação”, etc. Decoramos esses conceitos e os aplicamos em todas as situações históricas possíveis, mesmo quando conceitos e situações não se encaixavam. Afinal, tínhamos o marxismo! Para que precisávamos dos fatos, da realidade?” (Continua amanhã)

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