Imagem ilustrativa da imagem Carta de amor
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(Para R. V.)


Mulher, vem ser a minha linguagem. Pois ela e o tempo são aquilo que eu sou. Não sei onde começa a linguagem e termina o tempo: eu te quero justamente aí. Mulher, vem ser a alma do meu tempo.

Mas vem ser o que sou, mulher. Este imperfeito e lamentável ser que acaba no espaço e recomeça no instante. Onde cada frase, mesmo aquela impronunciada, vive a angústia de não poder dizer mais. Pois cada parte do meu ser quer dizer a frase, mulher, a frase definitiva e insuperável, depois da qual só pode haver silêncio. Meu ser é teu quando busca o silêncio, e quando fala pelos olhos, pela boca, pelas mãos. Onde eu acabo, onde tu começas. Vem ser meu fim, mulher.

Mulher, eu quero ser teu idioma. Quero ser teu sânscrito. Teu hebraico. Teu iídiche. Teu grego. Teu latim. Quero ser teu aramaico, mulher. Quero falar a língua do Filho. Eu quero a Idade da Paixão. Quero fazer uma pergunta em esperanto: — Em que língua pensa Deus? Assim Ele te pensa, mulher.

Traduzir-te para o espanhol dos meus bisavós paternos, para o francês dos meus bisavós maternos, para o último ritual dos judeus antes de se converterem em cristãos novos. Tudo isso faz muito tempo. E você estará lá, no ponto indefinido em que o tempo e a linguagem se confundem. No princípio era o Verbo, depois mergulhamos naquilo que passa. Presta atenção, mulher: é o tempo que passa.

Mulher, quero ver em ti as formas da minha obsessão. Quero tua mão sobre meu desespero. Quero teu grito sobre a minha felicidade. E assim tu serás a boa e a má notícia, irmanadas na vertigem do teu medo. E do teu medo nascerá o alento. O alento mais intenso que o mundo pôde imaginar no tempo.

Em ti, mulher, já mora o meu pensamento mais vital. O sonho dos 365 sonos do ano. Já faz 14 anos que estou nesta cidade, mulher. Jacó esperou 14 anos por Raquel. Esperou e trabalhou. Eu espero, escrevo, sonho. Vem ser minha cidade, mulher.

Quero você na minha palavra, na minha letra, no meu número. Na mínima serifa, na gotícula de tinta. No papel que ainda me aguarda no escuro da gaveta. Quero a substância dos teus verbos, a ação dos teus nomes. Quero a evidência da tua beleza e o milagre de teu estilo. Quero a fé e a ciência de ti. Vem ser meu lapsus linguae, meu rascunho, minha versão final. Vem ser a medida das coisas. Vem ser a voz. Acredita, mulher: é a minha voz.

Vem escrever meu Guerra e Paz, vem tocar minha 3ª Sinfonia, vem filmar minha Dolce Vita, vem colorir meu Matisse. Vem ser flor e anjo — dentro do meu sangue enlouquecido pela diástole. Conversa com meus fantasmas inofensivos. Vê meu cão que já morreu, mas ainda me guarda. Escuta meu tio doente e esclerosado que cantava músicas da Península Ibérica. Ouve bem, mulher: é o canto mais belo.

Faz de mim teu abalo e teu amparo. Pois a vida — disse um velho sábio cego — é um jardim de caminhos que se bifurcam. A vida é um grande Y. Faz de mim a eterna ocorrência das dualidades: luz e trevas, guerra e paz, crime e castigo, bem e mal.

Minhas palavras estão em guerra: querem a paz final entre o dizer e o ser. Faz de mim a morte do que se duplica: tempo-linguagem, uma só mulher.

Com amor,
Paulo.

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