Imagem ilustrativa da imagem Briguet vira-casaca!
| Foto: Acervo Pessoal

Estava eu tomando um café no centro da cidade quando chegou a passeata do pessoal da esquerda. Bebi o café de um gole só, paguei a conta, peguei o celular e fui para o meio da muvuca filmar o protesto. Um manifestante me perguntou:

“Você tá filmando pro bem ou pro mal?”

“Não entendi sua pergunta.”

“Você tá filmando pra falar bem ou pra falar mal da gente?”

“Eu estou filmando para que as outras pessoas possam ver.”

“Se for pra criticar a gente, melhor desligar essa câmera.”

“Não vou desligar. Isto aqui se chama liberdade de imprensa.”

Nesse momento, um grupo de jovens (possivelmente estudantes de jornalismo) me identificou no meio da passeata.

“Olha lá, é o Paulo Briguet!”, gritou a moça com camiseta de Lula Livre.

Em seguida, ouvi um grito. Mas, como estou com uma certa deficiência auditiva, não consegui entender a palavra gritada. Sei que terminava em “ista”. Pode ter sido “vigarista”; decerto não foi “comunista”; porém, mais provavelmente era “jornalista”, “cronista”, “colunista” ou “direitista”. Feliz com meus ouvidos moucos, não precisei mencionar a mãe de ninguém.

Por um breve instante, acreditei que o carro de som da passeata, em cima do qual uma garota berrava incessantemente contra Bolsonaro e a Nova Previdência, era o mesmo veículo utilizado nos meus tempos de movimento estudantil e de campanhas do PT.

“Será possível que eles não tenham trocado o carro de som? Já se passaram quase 30 anos!”, pensei, num relance.

A passeata de esquerda é quase monocromática. Bandeiras vermelhas, camisas vermelhas, faixas vermelhas, olhos vermelhos, slogans vermelhos — tudo é rubro escarlate sanguíneo. Apesar da vermelhidão, eles dizem que a Previdência não está no vermelho.

Punhos fechados pedem celas abertas. Palavras de ordem pedem o caos. Frases contra o governo pedem mais Estado. Verborrágicos pedem verbas. E a culpa, naturalmente, é daquele que não pode ser nomeado.

Então eu tive um flashback. Há 30 anos — sim, exatamente há 30 anos, em 1989 —, na época em que usava camiseta vermelha e estrelinha no peito, assisti a um comício do Lula neste mesmo lugar. Ali, onde hoje é a fonte de água do Calçadão, havia um coreto, e em cima do coreto Lula discursava. Jamais poderia imaginar que, três décadas depois, ele estaria no xilindró. Em 1989, dizíamos Lula lá. Agora, eles dizem Lula livre. Deus me livre!

E então apareceu um velho conhecido daqueles tempos, antes estudante, hoje professor universitário. Eu o vi e ele me viu. Provavelmente temos a mesma idade. Só que ele usa uma camiseta vermelha com o símbolo do comunismo. Ele olha para mim, eu olho para ele. Ele grita:

“Briguet vira-casaca!”

Sorrio. Perto do que me dizem no Facebook, “vira-casaca” é uma acusação suave, e aliás verdadeira. Quase fiquei saudosista. Quase. Mas depois, encontrei uma foto daquele tempo (a foto que ilustra esta coluna) e o saudosismo passou.

Para o bem ou para o mal, gosto mais de mim agora.

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