Imagem ilustrativa da imagem Aracy, a dama da esperança
| Foto: Paulo Briguet

Aracy Tólio Stamm mora no segundo andar de um edifício no centro de Londrina. Ao entrar em seu apartamento, o visitante se sente acolhido. Tudo em volta — os móveis, os sofás, os quadros, os livros, a limpeza, a luz da tarde que entra pelas janelas — cria uma atmosfera de aconchego e paz, confirmada pelo sorriso da anfitriã.


Nascida em Luzerna, Santa Catarina, Aracy chegou em Londrina aos três aninhos. Em 2019, ela está completando 80 anos na cidade. São oito décadas de fé cristã e amor ao próximo. Aluna de uma das primeiras turmas do Colégio Mãe de Deus, sempre dividiu seu tempo entre a família e a caridade.


Nem todos sabem, mas Aracy foi um dos principais nomes da Pastoral da Criança, criada pela médica sanitarista Zilda Arns e o arcebispo Geraldo Magella Agnello nos anos 80. Quando Dom Geraldo partiu para Roma, em 1999, Aracy assumiu a coordenação regional da Pastoral. Foram 15 anos de trabalho intenso para salvar vidas de crianças e mães carentes.


Aracy ressalta a importância do trabalho das mulheres voluntárias na Pastoral da Criança. “Eram mulheres de valor, que se dedicavam de corpo e alma ao que faziam”, diz. Muitas vezes, as voluntárias não tinham sequer o dinheiro para o passe de ônibus, mas trabalhavam com uma alegria. O inimigo era um só: a mortalidade infantil.


O soro caseiro e a multimistura — métodos simples, mas extremamente eficazes — salvaram e continuam salvando milhares de vidas. “Eu vi muitos milagres acontecerem diante dos meus olhos”, recorda Aracy.


As visões da fé e da esperança humana, que persistem mesmo nas situações de extrema miséria, lhe davam força para prosseguir com o trabalho. Certo dia, Aracy entrou em um barraco na periferia de Londrina. Em um canto, sobre o chão de terra batida, viu uma caixa de papelão, coberta por um pano, com um pequeno vaso e duas flores. A dona da casa esperava a imagem da Mãe Rainha de Schoenstatt — de quem Aracy é devota desde a infância.


Até hoje, Aracy continua envolvida em atividades da Igreja. Todas as semanas, reúne-se com integrantes da Liga das Mães de Schoenstatt para estudar as obras teológicas e educacionais do Padre José Kentenich. Apesar das dificuldades de locomoção, não deixa de frequentar os sacramentos.


Diante das manifestações de ódio e intolerância que tenho testemunhado nos últimos tempos, confesso que visitar Aracy Tólio Stamm foi para mim uma bênção. Ao final de nossa conversa, ela sorriu, fitou-me com seus olhos doces e disse: “Paulo, sempre trabalhei como voluntária. Mas garanto a você que vivi melhor do que se tivesse ganhado milhões”.


Houve um dia em que eu conheci uma mulher que morava no segundo andar, e que também trabalhou a vida inteira para fazer os outros felizes. Por um desses acasos de Deus, ela também se chamava Aracy. E eu sinto saudades.



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