A uma jovem esquerdista
Laís diz que eu me tornei um homem ridículo por “passear com o cachorrinho”. Ora, mas que vergonha há nisso?
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terça-feira, 03 de setembro de 2019
Laís diz que eu me tornei um homem ridículo por “passear com o cachorrinho”. Ora, mas que vergonha há nisso?
Paulo Briguet 

Laís, que conheço desde a infância, filha de um casal de professores universitários, está brava comigo. Pior: diz sentir nojo e vergonha diante do que eu me tornei. Afirmou isso, na rede social, para que todos pudessem ler.
Acho que Laís está perto dos 30 anos; eu me lembro dela, menina ainda, durante reuniões esquerdistas nos anos 90. Diz Laís que chegou a me admirar na adolescência, mas depois de minha guinada para a direita decepcionou-se amargamente. Não deve ser a única.
Ora, se eu tivesse continuado a ser aquele militante de esquerdista que a Laís admirava tanto, hoje muito provavelmente não estaria escrevendo estas linhas. É difícil fazer prognósticos sobre algo que não aconteceu, mas se continuasse no mesmo rumo creio que haveria apenas três destinos para mim: a prisão, a loucura ou a morte. Em qualquer desses três casos, eu continuaria sendo uma referência para a Laís, visto que a esquerda brasileira adora presos, loucos e mortos (desde que sejam presos, loucos e mortos do partido certo).
Laís diz ainda que eu me tornei um homem ridículo, que “passeia com o cachorrinho e conta mentiras”. Em relação às mentiras, suponho que não seja a opinião dos meus sete leitores. Em relação ao cachorrinho, é a pura verdade — mas por que isso seria motivo de vergonha? Um homem, para ser sério, precisa deixar o seu cachorrinho preso e com vontade de fazer xixi nas árvores? Pensei que os esquerdistas fossem defensores dos animais.
Talvez a Laís veja nos meus passeios com o Cisco um símbolo da vida “pequeno-burguesa” ou da “classe média golpista” que uma famosa professora petista certa vez afirmou odiar. Mas eu gostaria aqui também de listar outros hábitos que certamente a Laís consideraria risíveis: lavo louça; rezo o terço; vou à missa aos domingos; sou casado e tenho um filho; sou devoto de Nossa Senhora de Fátima, São José e São Maximiliano Kolbe; gosto de literatura russa do século 19; sou viciado em trocadilhos e em encontrar sósias das pessoas; estou escrevendo a biografia de um grande empresário e político brasileiro; votei em Bolsonaro, mas não deixarei de fazer críticas a ele, quando necessárias; defendo a reforma da previdência e o pacote anticrime; às sextas, bebo cerveja com o Bernardo Pires Küster na Toca do Bode; penso que o lugar do Lula é na cadeia; combato o aborto e defendo a livre iniciativa; sou aluno e amigo de Olavo de Carvalho.
Mas fique tranquila, Laís. Hoje eu rezarei um terço em sua intenção: o terço dos mistérios da alegria. Sei que um dia você me entenderá.


