A casa está pegando fogo

Triste é aquele que tem o dom de enxergar a realidade, mas não a capacidade de se fazer ouvido pelos outros

Kierkegaard conta a história de um palhaço que correu à aldeia mais próxima para avisar que o circo estava pegando fogo. Como o incêndio começara durante os ensaios, o palhaço estava vestido a caráter. Quando o viram, os moradores da aldeia começaram a rir e debochar do seu desespero; acreditavam que os pedidos de socorro eram mais uma de suas piadas. O palhaço chorava, dizia que não, que agora estava falando sério. Chegou a ficar de joelhos para que os moradores viessem ajudar a combater o incêndio. Mas ninguém lhe deu bola; quanto mais o palhaço suplicava, mais os aldeões riam.


A casa está pegando fogo
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O final da história da não poderia ser mais desastroso: o incêndio do circo se alastrou, chegando até a aldeia e matando todos os seus moradores.




O palhaço de Kierkegaard é um descendente do Bobo de “Rei Lear” e da Cassandra da “Ilíada”: todos eles são personagens que enxergam a verdade, respeitam a verdade, dizem a verdade — mas nunca são levados a sério. Quando as pessoas descobrem que eles tinham razão, já é tarde demais.


Cassandra era filha dos reis de Troia. Apolo presenteou-a com o dom da profecia, ou seja, com a capacidade de enxergar antecipadamente aquilo que os outros não estão vendo. No entanto, Apolo tinha intenções pouco nobres com Cassandra: desejava se tornar seu amante. Rejeitado por ela, Apolo decidiu vingar-se. Como não podia retirar-lhe o dom da profecia (deuses gregos não tinham o poder de voltar atrás em suas decisões), Apolo lançou sobre Cassandra uma terrível maldição: sim, ela continuaria enxergando a verdade, mas ninguém nunca mais acreditaria em suas palavras. Assim, Cassandra previu a ruína de Troia, mas os seus conterrâneos jamais a levaram a sério. Um poema de Friedrich Schiller resume toda a angústia de Cassandra, que se lamenta a Apolo: “Para anunciar o teu oráculo,/ por que me enviaste à cidade,/ onde habitam os cegos eternos,/ se tenho o espírito iluminado?/ Por que me levaste a ver/ o que não me é concedido mudar? / O determinado tem de acontecer,/ o temido tem de se aproximar.// De que serve levantar o véu,/ onde a tragédia se ameaça?/A vida vivemo-la no erro,/e o conhecimento é a morte./Leva, oh!, leva a triste claridade,/leva de mim o seu brilho sangrento!/ Terrível é ser arauto fatal/do teu conhecimento”.


O mais triste, tanto na história do palhaço quanto na tragédia de Cassandra, é que o rumo dos acontecimentos poderia ter sido mudado, se ao menos algumas pessoas lhes dessem ouvidos.


Se um aldeão dissesse:


— Talvez o palhaço tenha razão. Vamos ver o que está acontecendo.


Se um troiano dissesse:


— Talvez Cassandra tenha razão. É melhor evitar essa guerra com os gregos.


Se o palhaço, e Cassandra, e o Bobo, e Olavo de Carvalho, e Roger Scruton, e David Horowitz, e Dostoiévski, e Burke, e Padre Pio, e João Paulo II, e Bento XVI, e o Cardeal Sarah, e os pastorzinhos de Fátima, e tantos outros fossem ouvidos... inúmeras vidas seriam poupadas, e o mal não prevaleceria.


Mas ninguém leva o palhaço a sério.


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