1. Dois amigos, Pedro Levi e Ricardo Nélson, discutem bêbados à margem do rio. Rio? Na verdade, é apenas um córrego que os moradores da região, sabe-se lá por quê, apelidaram de Rio Sem Dúvida. São seis horas da manhã. Pedro diz que nunca se vê o mesmo rio. Ricardo, ao contrário, acredita que há apenas um curso de água, preso ao instante. “Da mesma forma”, argumenta Pedro Levi, citando o verso de Murilo Mendes, “nunca se ama duas vezes a mesma mulher”. Ricardo Nélson, com um sorriso quase imperceptível, contempla a folhagem verde diante do córrego castanho — a eterna folhagem, o eterno córrego —, e diz que sempre amou uma só mulher.

Imagem ilustrativa da imagem À beira do Rio Sem Dúvida
| Foto: Shutterstock

2. No dia anterior, duas amigas, Lia e Raquel, conversavam na varanda de um apartamento na Rua Humaitá. Lia tem olhos castanhos. Raquel, verdes. Eram seis horas da tarde. Como o apartamento fica no último andar, elas contemplavam o Sol poente, lá para os lados do campus universitário.

3. Ali, naquele mesmo lugar, alguns andares abaixo, e dez anos atrás, existiu a república em que moraram Pedro Levi e Ricardo Nélson. Sobre o que conversavam Lia e Raquel na varanda? Sobre os fantasmas da república demolida.

4. Uma notinha do jornal informou que milhares de garrafas boiaram no Oceano Pacífico após o naufrágio de um navio mercante, nos anos 90. Durante mais de vinte anos, as garrafas seguiram as correntes marítimas, enfrentaram tempestades e suportaram o Sol. Sempre juntas. Milhares de garrafas.

5. Volto para casa e percebo que a minha Internet mudou. De repente, ficou mais lenta. Recusa-se a entrar nas páginas habituais. Não recebe mensagens. Quando tento acessá-la, aparece uma misteriosa mensagem sobre a tela em branco: “About: blank”. Blank, em inglês, significa vácuo, lacuna, espaço a ser preenchido, papel em branco. É tudo que a Internet me oferece agora. Nunca se navega duas vezes na mesma Internet.

6. Pedro Levi não sabe se tem os olhos verdes ou castanhos. Eles frequentemente mudam de cor: ficam verdes quando ele está bêbado; tornam-se castanhos quando ele está com medo; ficam verdes quando ele está feliz; tornam-se castanhos quando ele está pensativo; ficam verdes quando ele está doente; tornam-se castanhos quando ele pede desculpas. Qual seria a cor original dos olhos de Pedro Levi? Ele não sabe, e é nisso que pensa enquanto caminha à margem do Rio Sem Dúvida, ao lado de Ricardo Nélson, companheiro de copo.

7. Na Rua Humaitá, vejo que duas moças acabaram de acordar e conversam na varanda. Lia e Raquel tiveram sonhos estranhos durante a noite. Sonharam com patos de borracha perdidos no oceano; com um computador que não acessa a Internet; com um estranho rio chamado Sem Dúvida, que ninguém sabe se é o mesmo, ou se muda a cada instante; com os fantasmas de uma antiga república que existia naquele lugar; com um cronista que escrevia tudo isso na tela em branco. E os olhos de Lia ficaram verdes, e os olhos de Raquel se tornaram castanhos, enquanto o Sol cumpria seu caminho para morrer lá no campus universitário.

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