Uma moeda de circulação mundial
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de junho de 2019
Marcos Rambalducci 
Na semana passada, o Facebook anunciou que lançará sua própria criptomoeda, a Libra (não confundir com a moeda inglesa).
A ideia é permitir que, por meio de um aplicativo, seja possível enviar dinheiro pela rede tão facilmente como é hoje enviar uma foto.
Como a Libra estará atrelada a uma reserva real, ela embarca as soluções do Bitcoin sem suas fragilidades. Voltemos um pouco às origens da moeda.
No princípio... tudo era escambo
No momento em que o homem deixa de ser nômade e passa a dividir as tarefas, dá-se início a troca de mercadorias entre eles, ou escambo.
Surge a moeda-mercadoria,...
Mas o escambo exigia a dupla coincidência de interesses para que a troca se realizasse. Por que não adotar uma mercadoria que seja de aceitação geral para servir de referência? Nascia aí a moeda-mercadoria.
...evolui para a moeda metálica...
As mercadorias que serviram como moeda tinham seus problemas e aos poucos foram sendo substituídas por metais, especialmente ouro e prata.
... e para a moeda-papel...
Mas carregar ouro era incomodo e arriscado o que levou ao surgimento das casas de custódia, lugar em que se guardava o ouro em troca de um certificado que representava a quantidade de ouro que tinha sido deixado lá. Surgia a moeda-papel.
... lastreada em ouro
A moeda-papel facilitava em muito os negócios e seu controle e emissão passou a ser função do Banco Central (BC) de cada país. As moedas podiam ser convertidas em ouro a qualquer momento.
Abandono do padrão ouro ...
Com o aumento da produção, era preciso mais moedas para as transações e os BCs, muitas vezes, não tinham a quantidade de ouro suficiente para fazer novas emissões.
... e nasce a moeda fiduciária ...
Deixaram então de considerar a relação entre quantidade de ouro e oferta monetária e passaram a emitir moeda de acordo com a evolução da produção. Nascia assim a moeda fiduciária.
... que também tem lastro...
Embora a moeda fiduciária não represente mais uma quantidade em ouro, isso não significa que ela não esteja lastreada. O que ocorre é a substituição do lastro em ouro pelo lastro em bens e serviços.
... a garantir seu valor
Isto fica patente quando um BC, ao emitir mais moeda do que o crescimento da produção, provoca inflação, que nada mais é que a desvalorização da sua moeda por falta de lastro. (Este entendimento não é unanimidade)
Nascem as moedas virtuais...
Bitcoin, Peercoin, Litecoin e outras tantas, são moedas virtuais, uma forma não regulamentada de dinheiro distribuído e controlado por seus desenvolvedores.
... sem qualquer lastro
Estas moedas não representam um ativo real de qualquer espécie (sua origem não é a representação de uma certa quantidade de ouro ou de bens/serviços), e seu valor é decorrência única da fé.
Já a proposta da Libra...
Diferente dessas moedas virtuais, os idealizadores da Libra partem de uma quantidade de ativos financeiros de baixo risco que dão lastro a essa moeda virtual que poderá ser trocada por outras moedas reais com base em uma taxa de câmbio estável.
... evita suscetibilidades,...
Dessa forma, ela guarda relação com a produção real (bens e serviços) e não melindra os Bancos Centrais, que continuarão a ter o controle sobre suas moedas.
...gera muitas dúvidas...
Mas ainda carrega incertezas, tanto na sua operacionalização, quanto na capacidade de se manter lastrada, bem como nas implicações sobre a política monetária de cada país.
... mas é promessa de evolução
Caso cumpra o que promete, de ser uma forma de pagamento mais barata, com menos intermediários e de âmbito mundial, seu impacto será enorme e com fortes implicações para o sistema bancário tradicional.
Dr. Marcos J. G. Rambalducci, economista, é professor da UTFPR. Escreve às segundas-feiras.


