O Dicionário Houaiss registra duas diferentes ideias da palavra “particular”. Trata-se de algo pertencente a alguém, seja como posse, seja como característica. Diz-se que um imóvel é particular quando se sabe ter ele um dono, um proprietário. Ao mesmo tempo, é particular aquele indivíduo de feições e habilidades raras. Assim, pode-se ser “dono” de um jeito muito particular de escrever, por exemplo.

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Fui atrás dessa dupla acepção da palavra particular no dia em que Joe Biden foi declarado vencedor das eleições presidenciais nos Estados Unidos da América. Não sou do tipo que torce por democratas imaginando que serão, na prática, diferentes à exaustão dos republicanos. Mas também não sou de declarar que todos os candidatos, aqui ou lá, sejam iguais de cabo a rabo. Como me disse um grande amigo, a diferença pode ser de nuances. Ocorre que, no caso da política, nuances podem representar a salvação de centenas de milhares de pessoas, em múltiplos aspectos da vida em sociedade.

Por ter adorado essa metáfora das nuances, estou convencido de que a derrota de Trump é muito mais interessante do que a vitória de Biden. Contra o ainda presidente qualquer adversário seria uma nuance positiva.

Mas e a tal ideia de “particular”, como me sobreveio à cabeça?

Trabalhei por mais de uma década numa faculdade particular. No duplo sentido da expressão: havia lá uma proprietária do estabelecimento, a qual, alegoricamente, carregava traços de personalidade quase exóticos, resvalando no absurdo.

Numa de suas bizarras palestras aos professores, quando não perdia oportunidade de desfilar um ego maior que o campus, a “dona” disse que os estudantes deveriam ser estimulados a ler biografias de grandes personalidades da história. No meu canto, em silêncio, concordei. Eu sempre fiz questão, em minhas aulas, de destacar as trajetórias de vida e os itinerários intelectuais daqueles que elegia como protagonistas das minhas disciplinas. Lembro-me, sem esforço, de falar sobre Chico Mendes, Luther King, Albert Einstein, Carlos Drummond de Andrade, Olga Benário, Walter Benjamin, Antonio Gramsci, Jacob Gorender e tantas outras gigantescas figuras do tempo histórico, no Brasil e no mundo.

Mas a “dona” da faculdade afirmou que a biografia por excelência seria a do milionário Donald Trump. Isso foi em 2006, dez anos antes de o megaempresário ser eleito presidente dos EUA. Guardo comigo, em forma de lamento, as extravagâncias da minha ex-patroa, um indivíduo indiscutivelmente autoritário, intolerante, vaidoso e disposto a todo tipo de “guerra cultural” para permanecer em evidência. (Uma vez ela quis fazer um “concurso” entre professores para premiar aquele que desse a melhor aula segundo... ela.)

Tudo que Trump representa estava entre nós antes que ele fosse o ser desprezível que o mundo hoje conhece. Sua derrota não o tirará de cena. Vencer Trump exigirá muitas frentes na batalha das ideias. Enquanto perdurarem os sentimentos de ódio que se alastram por aí, Trump poderá dizer que perdeu apenas em termos as eleições em seu país.

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