A CIDADE FUTURA -

Tomar decisões


Na semana passada, depois de mais de quatro anos escrevendo toda semana para a Folha, não houve “A cidade futura”. Pedi para ter uma folga, já que a terça-feira, dia em que costumo redigir os textos, era feriado. Eu julguei que precisava pensar um pouco sobre os rumos da coluna, sobre o modo de dizer as coisas.

 

Tomar decisões
 


A primeira conclusão – e também a mais enfática de todas – é a de que a democracia vem se transformando num tabu. Explico. Na medida em que se torna difícil defendê-la como um valor universal, vários outros temas tão urgentes nos tempos atuais também se tornam arredios, quase impenetráveis. Para mim, a democracia circula as questões étnicas e raciais, de gênero e de classe. A democracia é cenário histórico das liberdades públicas. Para poder me expressar e fazer livremente minhas escolhas, preciso da democracia tanto quanto do ar que respiro.


Escrevendo sempre sob a tutela democrática, percebo que as ideias se perderam num confuso mundo de extremismos. Tudo aparece como certo ou errado, contra ou a favor. Perdeu-se aquilo que, num ambiente democrático, é muito valorizado: as matizes. Entre o 0 e o 10, existem outras 9 possibilidades. Quando me sento para redigir “A cidade futura”, é a essas tantas possibilidades que me dirijo. Para os extremos, não existe palavra possível, ideia justa, reflexão pertinente. Ou se é amigo, ou inimigo. E isso, honestamente, cansa.


Ao mesmo tempo, concluí que vale a pena escrever para um grande jornal. Atinge-se mais gente, circula-se por ambientes impensados. Toda semana recebo um bom bocado de e-mails com observações preciosas e elogios estimulantes. São raras as mensagens bruscas ou oriundas de fanatismos. Fico com a impressão que, para os extremistas, escrever é um fardo – eles não gastam tempo com essas coisas “inúteis”.


A falta de defensores da democracia justifica nosso tempo de desigualdades múltiplas. Há tanta discriminação que a naturalização das injustiças não poderia ser mais fácil. Em vez de sermos reconhecidos pelo nome (João, José, Paula ou Cristina); somos apenas uma estampa: árabe, negro, homossexual ou mulher. Não importa o que façamos. Já esmos pré-definidos por aquilo que aparentamos.


Enfrentar essas questões e tentar influir no debate público sempre foi o objetivo de “A cidade futura”. Meu objetivo. Não temo as dificuldades, embora às vezes elas me forcem a um período de balanço. Para quem estou escrevendo? De que maneira influo no rumo dos acontecimentos? Como sou visto por quem pensa diferente de mim? Mais ainda: como sou compreendido por aqueles que se sentem ao meu lado? Só uma coisa me apavora mais do que um inimigo destemido: um amigo insosso.


Ontem decidi me sentar e novamente redigir o texto de “A cidade futura”. Senti que o texto circula, gera debates, insinua reflexões. Ao mesmo tempo, acredito que ele, ao enfrentar os inimigos da democracia, torna-se vital hoje. Defender a democracia é colocar-se ao lado daqueles que defendem direitos humanos, liberdades públicas, ideias sustentadas na generosidade e no amor ao mundo. Última constatação: decidi que vou ficar.

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