Excessos costumam levar à fadiga. A repetição de palavras cansa missivistas e destinatários – exaure até os distraídos e curiosos. Vive-se mal quando há só uma escolha e dela se extrai tudo. Numa realidade marcada pelos excessos, não é importante conhecer e elaborar juízos tão radicais quanto equilibrados; é fundamental tão somente saber se impor, ainda que anos-luz do bom-senso.

Imagem ilustrativa da imagem Sobre excessos e fadigas
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É cansativo ter sempre algo a dizer. Do mesmo modo, é enlouquecedor ter de ouvir as mesmas coisas todo dia. A necessidade de se exibir em redes sociais – publicando pratos de comida, paisagens das caminhadas matinais ou pérolas da intimidade – é, por si só, um desdobramento dos excessos que produzem, fortalecem e perpetuam cansaços, estresses, tristezas profundas. Por trás de uma fotografia repleta de sorrisos pode estar um sujeito destemidamente convencido a disfarçar a própria solidão. O radiante mundo virtual é pródigo em ocultar realidades obscuras.

A fadiga tem inúmeras descendências. Um caso típico é o da insistência em defender o indefensável. A incontinência verbal contagia aqueles que têm excesso de não ter de fato o que fazer. Disso decorrem as ofensas, das quais surgem os lambe-botas e os baba-ovos de lideranças e autoridades. No Brasil, o chefe de Estado fala o que quer, sem pensar: insulta tudo e todos, ironiza direitos, constrange a história, deixa enrubescidos os que ainda têm algum senso do ridículo. Ao mesmo tempo, seus milicianos particulares – nos meios de comunicação social, na internet ou nos almoços de domingo em família – estão em permanente estado de vigilância, defendendo-o, mesmo quando isso se revela absolutamente impossível e indesejável. O excesso na defesa do particular produz, além da vergonha alheia, a fadiga do coletivo: a vida em comum se torna perigosa e litigiosa.

A vaidade é uma das mais irritantes figuras do excesso. Os indivíduos que têm no lugar do cérebro o próprio umbigo adoram falar de si mesmos em ambientes de orientação pública. Fazem de toda conversa uma consulta privada, um palanque pessoal, uma oportunidade para dizer que são “bons”, que estão invariavelmente “certos”, que seus desafetos são os “inimigos” da nação, do continente, do planeta. Espíritos fadigados, obrigados a se suportarem durante as 24 horas do dia (uma verdadeira morte em vida), encontram na autoidolatria uma prece de misericórdia, um discurso positivo contra a negatividade de uma existência sufocante. Aos excessivamente vaidosos falta muita coisa, principalmente autocrítica (são falsos arrependidos) e percepção da finitude – em geral, pensam que ficarão para semente, num perfeito paraíso repleto de armas de fogo, florestas devastadas, escolas e hospitais em ruínas e “filósofos” formados na velha boate azul.

O excesso invariavelmente recai na mentira. A verdade é frágil, exigente, não lida com alucinados nem amantes do absurdo. Há uma natureza que agoniza no mundo, e os fadigados acreditam que isso seja uma conspiração de “esquerdistas”. Aliás, aqueles que assediam a razão com seus delírios não perdem tempo de rotular os outros: “ismos” e “istas” estão em tudo que é lado. Só os vaidosos e fadigados estão acima de parcelas e valores – eles são o todo, o Ocidente, a tradição das tradições. Na ânsia infrutífera de imaginarem-se porta-vozes da verdade, os fadigados pelo excesso (“self-lovers”) se esquecem da lama em que estão mergulhados e do imundo calabouço do qual vieram. Prometem luz depois de terem conduzido a história pelas trevas.

Os fadigados pelo excesso são como violões desafinados. Não alcançam a diversidade, não aceitam a complexidade, não tocam na pluralidade das formas de vida. Suas variações são mínimas, ruidosas e de pouquíssima escala. Não importa qual compasso esteja em execução: a sonoridade é confusa, desarmoniosa, sem estilo e incapaz de atingir a sensibilidade humana. A boa notícia, portanto, é que, embora façam muito barulho, esses violões não emocionam ninguém. Não passarão!

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]

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