Reflexões roqueiras de carnaval
Quem quer que intua entender o Brasil precisa mergulhar em suas raízes culturais
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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023
Quem quer que intua entender o Brasil precisa mergulhar em suas raízes culturais
Marco A. Rossi 

Carnaval nunca foi a minha praia. Desde garoto, quando pertencia de forma engajada à turma do rock, aproveitava os dias de folia para me recolher com minha guitarra e discos de heavy metal. Passava dias em torno de mim mesmo, ouvindo e tocando música, escrevendo poesia, refletindo sobre a vida daqueles tempos em que o mundo parecia infinito.
Meu desapreço pela maior festa popular do Brasil não tinha nada de ojeriza às massas ou sentimento pequeno-burguês. Nada disso. Apesar de minhas inabaláveis convicções socialistas – que se somam à crença de que é a partir das ruas que o mundo muda –, fujo às multidões. Por temperamento, sou recluso, um pouco antissocial, portador de um mundo interior milhões de vezes maior do que o mundo exterior. A mistura exagerada de livros e discos em minha vida apresentou-me um universo dentro do qual permaneço à vontade, absorto em pensamentos, tentando contribuir com a humanidade (santa presunção!) por meio de ideias, teorias, análises sobre aquilo que posso perceber ou antever.
Com o tempo, a visão do Carnaval foi se transformando em minha cabeça. Já na faculdade, interessei-me pelos estudos sobre a cultura brasileira e a formação sociocultural de nosso país. Compreendi melhor o papel das festanças do povo, das religiões de ascendência africana, da musicalidade de rua e dos valores que brotam da resistência contra as inúmeras formas simbólicas de repressão e exclusão. Quem quer que intua entender o Brasil precisa mergulhar em suas raízes culturais, em seus desdobramentos periféricos, em suas incontáveis manifestações políticas e artísticas em favor das muitas nações que nos compõem, dialética e surpreendentemente. Fora da cultura, sob qualquer perspectiva, resta muito pouco.
Hoje sou fã de Beth Carvalho, Martinho da Vila e Paulinho da Viola. Ouço-os com imenso prazer. O rock é hegemônico em minhas preferências estéticas, mas aprendi a mesclá-lo com muitos outros ritmos e cores. Tornei-me, assim, aquilo que melhor define minha própria visão de mundo: um pluralista. Abraço com satisfação os tons da diversidade e entendo que é dos múltiplos que derivam as melhores experiências culturais. Cito aqui, como contraponto, o excelente álbum “Roots”, de 1996, da banda Sepultura, que aliou metal e sonoridades brasileiras, abrindo espaço para os índios Xavantes e toda a beleza do Alto Xingu. Abrir-se para o novo, afinal de contas, é o que define a cosmovisão de esquerda, contrastando-a com a inefável “rigidez” dos sentimentos mais conservadores.
Não consigo, no entanto, “pular” Carnaval. Prefiro ainda meu retiro individual, meus filmes, livros e discos. Admiro quem aprecia a folia com devoção, com espírito inquieto e disposto à alegria. A vida, vale destacar, é feita de muitas coisas, tem diferentes dimensões. Fundamental é atravessá-la com entusiasmo e forte compromisso com os “de baixo”. Depois de tudo, como ensinou o filósofo Blaise Pascal, o que fica é aquilo que fizemos pelos outros. Quarta-de-cinzas, por sinal, é instante de refletir sobre como estamos vivendo.


