Pão e circo 2.0
“Por que, em relações sociais complexas e exigentes, desgastantes e pouco recompensadoras, o entretenimento se tornou uma obsessão?”
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quinta-feira, 22 de agosto de 2019
“Por que, em relações sociais complexas e exigentes, desgastantes e pouco recompensadoras, o entretenimento se tornou uma obsessão?”
Por Marco A. Rossi 
“Ato ou efeito de entreter(-se), de distrair(-se).” Ou ainda: “Aquilo que distrai, entretém; distração, divertimento.” No registro do Dicionário Houaiss, a expressão entretenimento se acumplicia com diversão, passatempo, uma maneira historicamente determinada de “matar” o tempo livre.

Desde o final do século 18, à proporção que crescem as falsas promessas do capitalismo em relação à libertação do trabalho e à superação de uma vida orientada pela sobrevivência, multiplicam-se as estratégias para manter “entretidos” os seres humanos, divertindo-os, aliviando-os do fardo do tempo. Hoje – dizem – há tanto “tempo livre”, graças às tecnologias e aos avanços morais da modernidade do capital, que o entretenimento deixou de ser algo acessório para se converter em núcleo existencial. Mais do que um modo de extermínio do tempo ocioso, o entretenimento contagia tudo.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, numa de suas obras mais recentes, “Bom entretenimento”, reflete sobre essa mudança paradigmática. Afinal, como a ideia de diversão se tornou pilar da sociabilidade moderna? Por que, em relações sociais complexas e exigentes, desgastantes e pouco recompensadoras, o entretenimento se tornou uma obsessão? As respostas não são fáceis e alertam para a elaboração urgente de alternativas.
O autor de “Sociedade do cansaço” aponta uma infinidade de hibridações (misturas) da ideia de entretenimento no mundo contemporâneo: educação, trabalho, informática, comunicação, viagens, toda sorte de serviços, tudo é, de um jeito ou de outro, algo a somar ao entretenimento. Estudar e divertir-se. Trabalhar e alegrar-se. Viajar e tornar tudo leve, saboroso, livre de reflexões ou compromissos. A ubiquidade do entretenimento tornou-o um conceito totalizador, sem o qual a vida não se explica nem vale a pena.
Num modelo de organização social em que salários são baixos e a maioria das formas tradicionais (e lícitas) de obter renda está em processo de extinção, apelar para a diversão infinita é de uma sordidez típica de quem só vê no outro um trampolim para projetos pessoais. Tanto é que a indústria do entretenimento já é uma das maiores do planeta em captação de recursos e lucratividade empresarial. Entreter(-se) é a mina de ouro da modernidade tardia.
Não se trata de encarar o trabalho como fonte de inspiração e prazer. Ao contrário: a questão é ocultar a sua face perversa e obscura, que rouba energia e destrói a vida, reduzindo-a à passagem dos dias. Do mesmo modo, não é que a educação tenha se tornado tão boa a ponto de poder ser vivenciada entre sorrisos: ela foi convertida numa mercadoria na qual a reflexividade cede espaço à banalização do pensamento e à ilusão. (Aqueles que frequentam instituições de ensino superior privadas, negócios do tipo “sociedade anônima”, nem imaginam que, após 4 ou 5 anos, estarão – se tiverem sorte! – no mesmo lugar em que estavam antes de fazer matrícula numa dessas máquinas caça-níqueis.)
O caráter híbrido e totalizador do entretenimento, portanto, sufoca a vida e a desvia de rota, prometendo diversão onde só há sofrimento, num modelo de socialização que sequestra sonhos, multiplica o mal-estar e vende todo tipo de calmantes e alucinógenos (legais e ilegais). Uma rápida navegação pelas chamadas redes sociais é suficiente para compreender essa grosseira comunhão entre diversão, irresponsabilidade e saque do futuro.
Byung-Chul Han, contudo, acredita que é possível construir um “bom entretenimento”, que seja capaz de articular prazer, senso de responsabilidade, respeito ao outro e ao mundo, com trabalho, formação pessoal e, é claro, cidadania. O cinema, a literatura, o turismo e as artes de modo geral não precisam ser um crime inafiançável contra a condição humana. O desafio está (sempre esteve) colocado. Mãos – e cabeças – à obra.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


