Outra história
“Bestas-feras deitaram e rolaram no Brasil e no mundo, querendo que todos lhe fossem iguais, censurando e perseguindo os diferentes”
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de dezembro de 2019
“Bestas-feras deitaram e rolaram no Brasil e no mundo, querendo que todos lhe fossem iguais, censurando e perseguindo os diferentes”
Marco A. Rossi 
Bertolt Brecht dizia que, no mundo real, só o fragmento traz a marca da autenticidade. A humanidade, como totalidade orgânica e fraterna, não deveria jamais almejar um cenário de iguais. É na diferença que o amor se faz possível, dando aos sujeitos a garantia de que vale a pena viver.

O outro – esse ser tão agredido na cotidianidade – não se reduz a nenhuma linguagem nem tem a menor chance de sobreviver a comparações que o anulem em favor de algo já pronto e estabelecido. Aquele que me é exterior é também assimétrico à minha visão de mundo. Para com ele conviver, preciso respeitá-lo em sua singularidade, permitir-me aprender coisas inusitadas. Ele não deve ser objeto de tipificação. Aliás, ele não deve ser objeto: é sujeito, tanto quanto eu acredito ser.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, no livro “Agonia do Eros”, aponta que, nas modernas sociedades de consumo, tendemos a apagar a negatividade do outro, igualando-o aos demais. Assim, tornamo-nos presas fáceis para toda sorte de propaganda ideológica. O desaparecimento da negatividade do outro, ou seja, de sua irredutível diferença, sugere que pessoas possam ser maltratadas, pensadas como peças de consumo rápido, sem sangue, nem suor, nem lágrimas. A perda da negatividade é também a rejeição do que há de humano em nós.
Por que temos de “dar certo” o tempo todo? Por que não podemos chorar e sentir medo? À base de ansiolíticos, seguimos em frente, rumo ao abismo infinito dentro de nós. A “positividade” do mundo das mercadorias transforma o consumo em regra geral. Para que tudo possa “vender bem”, a ética, o meio ambiente, as relações de pura gratuidade, os valores da amizade e do amor, nada disso pode reivindicar sentido. E os hipócritas não abandonam o posto: propõem um deus falso e uma ideia de família estapafúrdia; pregam um moralismo absurdo e destroem a base cultural e democrática da civilização. O objetivo é raso: rir do outro (aquele que julgam nada valer) para não chorar de si mesmos (os inúteis “iguais”).
Sócrates, o filósofo, dizia que, em termos amorosos, o outro deve ser um “atopos”, um sem-lugar. Ele não pode caber em minhas medidas, minhas concepções de certo e belo. O outro, esse ser agora “erotizado” pelo meu desejo de com ele dividir vida e mundo, é aquele que saúdo por me ensinar o que não sei, por providenciar o que não tenho, por iludir-me naquilo de que nem desconfio. O outro é além de mim e se insere nos mistérios da existência. Por ser “negativo”, me impede de capitular diante do “positivo” e, dessa forma, apagar-me da história.
O ano de 2019 foi difícil para o outro. Bestas-feras deitaram e rolaram no Brasil e no mundo, querendo que todos lhe fossem iguais, censurando e perseguindo os diferentes. Odeiam a “negatividade” porque a veem como pedra em seu caminho de obscuridade e “positividade”. São ridículos que açoitam intelectuais, cientistas e artistas. Mas 2019 termina e nós, os democratas do “polo negativo”, estamos aqui, dispostos a seguir no bom combate.
Um feliz e inspirador 2020 para todos que, na celebração da diferença, lutam por um mundo mais igualitário e bonito.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


