Os sentimentos do mundo
“A ausência humana estava fazendo bem ao mundo, que confessava não precisar tanto assim do 'homo sapiens' para ter sentido”
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de abril de 2020
“A ausência humana estava fazendo bem ao mundo, que confessava não precisar tanto assim do 'homo sapiens' para ter sentido”
Marco A. Rossi 
Apesar da boa saúde e da enorme disposição para o trabalho, Alberto era um nonagenário. Sabia-se membro de grupo de risco e, portanto, refugiara-se em casa. A sapataria podia esperar. De que serviriam sapatos renovados? O melhor a fazer, diante da ameaça invisível, era preencher o tempo entre ideias e livros.

Pelas manhãs, sentia como nunca a vantagem de ter uma grande família. Brincava com os netos e ajudava os filhos nas tarefas domésticas. Tinha apreço especial pelo jardim, onde cultivava bonsais. Em voz baixa, confidenciava às flores suas impressões da crise.
Alberto havia presenciado os horrores do fascismo e da guerra. Um vírus lhe parecia insignificante. Mesmo assim, indagava-se: seria a flama do novíssimo mal a última oportunidade de a humanidade se enlaçar num mundo sem tanta hostilidade, ganância e estupidez? A avançada idade não havia transformado Alberto num conservador ranzinza: a esperança inabalável (baseada exclusivamente em fé e nenhuma evidência) afiançava-lhe eterna juventude.
Alberto, entretanto, desviava-se da ingenuidade. O medo à morte não faria nenhum indivíduo melhor, nenhuma nação mais solidária, nenhum capitalista menos atroz. A base de tudo continuaria a ser a competição desenfreada e a busca pela satisfação de interesses privados. Mas há algo sempre surpreendente na realidade: assim como Walter Benjamin, Alberto acreditava que a percepção que os sujeitos têm da realidade contribui para a formação das diversas visões de mundo existentes. Apostava, então, numa mudança de percepção – e ela surgiria de uma troca de posições.
Em vez de pensarem no que estava acontecendo com o mundo, as pessoas seriam levadas a imaginar o que o mundo estaria pensando sobre as sucessivas crises a que é lançado por causa dos desaconselháveis ímpetos da ação humana. As águas nunca foram tão transparentes, o céu jamais foi tão azul, o silêncio e a limpeza já regozijam as cidades. A corrida pelo lucro tornou-se menos letal e os indivíduos – assustados! – menos ansiosos e vulgares. Se não eram lidos, os livros passaram a ser ao menos lembrados. O amor passou a resistir, embora sem existir em plenitude. Mas era um recomeço, uma lufada de ar fresco, pensava Alberto.
A ausência humana estava fazendo bem ao mundo, que confessava não precisar tanto assim do “homo sapiens” para ter sentido. Alberto pensava que essa percepção da inutilidade poderia reduzir a arrogância dos seres humanos. Seria um momento crucial para que os métodos historicamente adotados de convivência fossem postos em xeque. As dores da incerteza poderiam sugerir que a destrutividade das relações sociais baseadas no dinheiro e no poder são combustível para vírus e muitas outras formas de ameaça. A sombra do apocalipse poderia conduzir as pessoas para o momento anterior ao nascimento do mundo do capital e da desumanização crescente. De lá, da aurora da história, alternativas seriam imaginadas. Seriam?
Alberto recolheu as pequenas folhas retiradas dos bonsais. Antes de regressar a casa, apanhou peras no quintal e jogou água nas formosas samambaias. Não via a hora de tomar banho, relaxar e seguir na leitura do novo livro do amigo Chico Buarque.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


