É comum que se considerem os detalhes o segredo da verdadeira beleza. O singelo, por sua vez, é muito mais encantador e sensível do que o complexo ou incognoscível. A sabedoria popular crê em narrativas muito mais do que em tratados; prefere o olho no olho à frieza de mensagens virtuais; aposta que vale a pena o risco inerente a uma grande paixão de carne, osso e espírito, em vez de infrutíferas aventuras amorosas na internet.

Imagem ilustrativa da imagem Os livros e a (re)descoberta do mundo
| Foto: Shutterstock

O sapateiro Alberto, um anarquista das antigas, refletia sobre esses pequenos sinais de felicidade perdidos no tempo. O espaço também já não dizia muita coisa: era quase um mantra a ideia de que, onde quer que se esteja, tudo está ao alcance de um clique. A vida, a bem dizer, havia perdido o hábito de cultivar mistérios, instigar buscas, nutrir a curiosidade e, com a graça da passagem das estações, amadurecer os pensamentos.

Há dúvida? Pergunte ao Google. Aconteceu? Confira nas redes sociais. Lançamento de livro, filme ou álbum musical? Faça um download. Alberto lamentava que as bibliotecas vivessem às moscas, as livrarias estivessem desaparecendo, os cinemas já não conquistassem muitos interessados. Uma paisagem da infância, então, lhe vinha à mente: via-se ao lado do pai, lendo o jornal de domingo, na sala do modesto sobrado dos primeiros vinte anos de sua vida. Mais tarde, com os filhos, todos os dias, dividia os cadernos do jornal numa leitura coletiva. Ele ficava com política e cultura, enquanto os garotos se revezavam na apreciação dos esportes e suplementos jovens. Definitivamente, embora reconhecesse que o tempo não para e as tecnologias também produzem maravilhas, Alberto era do tempo das notícias de papel, das reflexões demoradas, da mão suja de tinta dos quase extintos jornalões.

Seus netos liam blogs. Já não leem mais. Agora, seguem youtubers e celebridades instantâneas em “timelines” repletas de tudo sobre nada. A velocidade das mudanças na era da desinformação é acachapante. A grande novidade do verão estará no museu de inverno em poucos meses. Se a estética é descartável, a ética é horripilante – na ânsia de querer abraçar o mundo, os novíssimos sujeitos sociais da rede mundial de computadores passam adiante informações sem procedência, mentiras travestidas de verdade inquestionável, ódios que se dizem matéria-prima para o bom conhecimento. O sociólogo alemão Hartmut Rosa, no livro “Aceleração”, trata essa “pressa” como um adágio da modernidade tardia: crentes de que sabem muito mais do que sabiam os humanos de outras épocas, os indivíduos contemporâneos perdem-se em ilusões, cansaços e ansiedade. Adoecem em tempos de promessas de vida longa. Desperdiçam as chances do bem viver.

Alberto andava lendo os livros de novos sociólogos, como Axel Honneth e sua teoria do reconhecimento, Luc Boltanski e os paradoxos do novo espírito do capitalismo, e o já indicado Hartmut Rosa e suas análises sobre as perturbadoras temporalidades modernas. Alberto passava para os netos o amor às Ciências Humanas. Ele sabia que seus netos poderiam ser sujeitos melhores com a Sociologia e a Filosofia, não sem elas.

Enquanto esquentava água para um bom chá de fim de tarde, Alberto organizava os livros para a leitura da manhã seguinte. A única certeza que carregava em sua vida quase centenária era a de que o tempo faz seus registros de maneira inevitável. Por isso, lia, dialogava, queria entender o mundo a cada dia, uma vez que não acreditava em heróis nem verdades eternas do bem contra o mal. Não tinha mais idade para essas bobagens. Preferia mesmo os detalhes da beleza e a riqueza das narrativas, tudo presente em abundância nos livros.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]

mockup