Conhecia Didier Eribon do livro “A sociedade como veredicto”, publicado em 2013 e ainda sem edição brasileira. Nessa obra fundamental, o autor intui que vivemos sob sentenças das estruturas sociais: os modos de pensar e agir da coexistência humana estariam condicionados por uma enorme máquina de reprodução da ordem e das desigualdades. Os elos duradouros que ligam os sujeitos sociais repousam sobre seus ombros, quase invisíveis, garantindo a manutenção dos processos de distinção e dominação.

Em “Retorno a Reims” (publicado na França em 2009 e agora, em 2020, lançado no Brasil pela editora Âyiné), Eribon narra sua volta para casa, no nordeste da França, depois de 30 anos, para acertar as contas com a própria história. No livro, o sociólogo explicita memórias e frustrações, num poderoso encontro com o que julgava ter esquecido e superado a respeito de si mesmo.

De Paris à terra natal, um antigo e pequeno povoado, são só 150 quilômetros de distância. Na memória, quadros de um tempo de desentendimentos. A viagem desperta a lucidez de quem, enfim, descobre que nunca foi outro, apesar de ter acreditado nisso. A morte do pai, em cujo enterro preferiu não estar, deu a Eribon a chave de compreensão de sua velha vergonha como filho de operários, pobre, provinciano, extremamente deslocado.

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. | Foto: iStock

Eribon acabou por tornar-se um dos mais importantes intelectuais de nosso tempo. Aquilo que julgava ser fruto de sua “fuga” das origens sempre esteve ali mesmo, de sua cabeça aos pés. Foi necessário um longo regresso para entender que o caminho percorrido não poderia levar a nenhum lugar diferente.

Em “Retorno a Reims”, de modo concomitante à leitura que faz de suas experiências pessoais, Didier Eribon reflete sobre o século 20, seus desastres e inconclusões. Já num novo século, a França faz também um retorno para dentro de si, como pedaço de mundo, refém de grandes transformações e perplexidades históricas. A família de operários, que apostava no Partido Comunista para se emancipar, contraria sua identidade, sua classe e sua trajetória (três substantivos emprestados ao subtítulo de “A sociedade como veredicto”) para lançar-se em desespero aos apelos da extrema-direita. O voto na promessa de liberdade foi substituído pela desobrigação social de politizar publicamente a vida em comum.

Em Paris, na luta contra as sombras do passado, Eribon não aprendeu a gostar dos burgueses, ao mesmo tempo que se despediu dos sentimentos de ultraje do passado. O berço humilde lhe impôs longas esperas, várias “derrotas” (perder para os “vereditos” do mundo pode ser considerado um fracasso?) e a certeza de que algo muito estranho tomava conta de seu espírito.

Uma poderosa “introspecção ideológica” salvou Eribon do sofrimento. Quando entendeu que muito do que o preenchia como ser humano não deixaria Reims, decidiu-se pelo retorno. O grande pensador em que havia se transformado não era um “apesar de ontem”, mas um “graças a ele”.

“Retorno a Reims” é leitura obrigatória a quem deseja um encontro afortunado diante do espelho, no qual a vida surge, não como superação, mas como eterna continuidade.