O velho amigo da esperança
O método de Paulo Freire alfabetizou milhares de brasileiros, a maioria pobre, esquecida, invisível aos olhos de quem se sustenta dentro das estruturas de poder desde a carta de Pero Vaz de Caminha
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quinta-feira, 18 de abril de 2019
O método de Paulo Freire alfabetizou milhares de brasileiros, a maioria pobre, esquecida, invisível aos olhos de quem se sustenta dentro das estruturas de poder desde a carta de Pero Vaz de Caminha
Marco A. Rossi 
O pai de Alberto foi amigo do Barão de Itararé. Nas décadas de 30 e 40 do século passado, ambos caminhavam pela orla carioca em busca de temas para a boa crítica jornalística. (Apparício Torelly, o Barão, era proprietário do famoso semanário “A manha”, um trocadilho com o aburguesado “A manhã”.) Eram também parceiros na luta contra as arbitrariedades de Vargas. Definitivamente, ditadores não os convenciam.

Alberto herdou do pai a vocação profissional e as cercanias ideológicas: tornou-se sapateiro e jamais deixou de carregar no peito um potente instinto anarquista. De modo indireto, herdou do amigo paterno, o Barão, uma frase que se tornaria um lema em sua vida: “De onde menos se espera, dali é que não sai nada mesmo”.
O sapateiro Alberto vivia, hoje, longe da praia e se ressentia da falta de brisa à porta de casa. Londrina era seu pedaço de paraíso, o lugar que escolhera para cultivar experiências com os netos. Quando a saudade do mar batia muito forte, dirigia-se ao Lago Igapó e por lá permanecia longas horas, chutando, desajeitadamente, bola e inventando piqueniques cada vez mais atraentes para a criançada. Alberto era uma espécie de educador a céu aberto.
Custava-lhe crer que o Brasil andasse às turras com o bom senso. Embora não esperasse nada do governo, seus apoiadores e inspiradores, produzia-lhe mal-estar o excesso de asneiras no ar. Diariamente, as “novidades” o entristeciam. A fragilidade intelectual das elites lhe cansava o espírito. Numa ordem social em que o nazismo era de esquerda, o agourento golpe militar havia sido a salvação da pátria e os “chefes” não apresentavam nada de semelhante a um projeto efetivo de condução do país, a frase-lema do Barão fazia cada vez mais sentido – e cavoucava ainda mais o buraco em que o país havia caído.
Se seu pai havia sido amigo do Barão, ele, Alberto, se enchia de orgulho por ter partilhado grandes momentos ao lado de Paulo Freire, um dos educadores mais laureados no mundo. Paulo e Alberto eram espécies de pedagogos do mundo da vida, atentos às formas cotidianas da existência, ao brilho nos olhos de quem trabalha duro e, apesar das enormes e crescentes dificuldades, insiste em sonhar.
Paulo ensinou a Alberto que a educação deve libertar o pensamento e abrir caminhos para uma experiência digna, ativa, rebelde. O método de Paulo alfabetizou milhares de brasileiros, a maioria pobre, esquecida, invisível aos olhos de quem se sustenta dentro das estruturas de poder desde a carta de Pero Vaz de Caminha. Paulo sabia que só se podia aprender a partir daquilo que era conhecido. Ele humanizou o saber.
Dentre os admiradores de Paulo, sem exagero, surgiram alguns dos mais destacados intelectuais do país. Paulo não fez seguidores em risíveis cursos on-line: o autor da “Pedagogia da Autonomia” ajudou a formar um tipo humano novo, qualificado para as trilhas democráticas. Não é de espantar, portanto, que seus detratores sejam profundamente autoritários e hostis à realidade não virtual. Para os que culpam Paulo pelo “fracasso” da educação escolar, a democracia é um ardil; a política, um ato demoníaco; o amor, um desperdício. Se pudessem (e estão bem perto disso) diriam que as estrelas impedem que se veja o infinito.
Alberto contava aos netos sobre o amigo Paulo, um dos pensadores mais citados em trabalhos acadêmicos em todo o planeta. Falava-lhes sobre as pedagogias do oprimido e da esperança, irmãs gêmeas no processo de emancipação social. O neto menor, sempre ele, perguntou:
- Vô, por que xingam tanto o seu velho amigo hoje em dia?
Alberto, de olhos arregalados e coração em cinzas, respondeu:
- Sabe, meu amor, eu tenho cá para mim que essa gente não tem a menor ideia do que pensa ou diz. Vive à margem de si mesma, à cata de uma sombra para aliviar o calor das chamas que lhe queimam a alma. É uma gente infeliz.
- Ele ficaria triste com tudo isso, vô?
Alberto sorriu:
- De jeito nenhum, meu pequeno. Paulo foi vítima de muitas injúrias e perseguições. Sofreu no exílio que a ditadura lhe impôs. Mesmo assim, continuou trabalhando, escrevendo, falando a quem quisesse ouvi-lo. E muita gente o ouviu. Graças a essa gente que prestou atenção em Paulo, o Brasil segue uma nação viável, apesar de tudo. Paulo formou cidadãos, e é isso que incomoda seus adversários. Paulo passou e permanece. Eles não passarão.
E Alberto chutou mais uma vez a bola. A garotada estava animada.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


