O indecoroso glamour do progresso
Aqueles que combatem o viés partidário dos outros desejam apenas que o seu próprio viés, mais partidário e mesquinho do que os demais, prevaleça
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quinta-feira, 27 de junho de 2019
Aqueles que combatem o viés partidário dos outros desejam apenas que o seu próprio viés, mais partidário e mesquinho do que os demais, prevaleça
Marco A. Rossi 
Uma das principais armadilhas do conhecimento é a ideia de tempo linear. Em cada época, de um modo mais ou menos intenso, sobressaem os defensores da evolução e do progresso como conceitos puros, válidos para tudo e todos.

Os capangas do neoliberalismo, por exemplo, adoram esse receituário: menos estado, mais mercado; menos coletividade, mais solidão; menos cidadania, mais consumo; menos sociologia, mais empreendedorismo; menos ética, mais salve-se-quem-puder. E por aí vai. Fora disso, sem exceção, tudo está errado e não representa o ritmo das “reformas urgentes e necessárias”.
Para os amantes do tempo linear (siameses dos idólatras da Terra plana), diversidade e reflexividade são orquestrações de desocupados que não querem reconhecer a “verdade”. Ficou famosa a história de uma diretora de escola que, em meio às comemorações da Semana da Pátria, alguns anos atrás, impediu um grupo de alunos de expor um painel com imagens das contradições da sociedade brasileira, em que apareciam lado a lado cenários de miséria e opulência. Segundo a diretora, o Brasil não era nada daquilo. Neste país, ela insistia, as belezas naturais e a fé do povo são tudo de bom e não combinam com essa bobagem de desigualdade social e exploração dos pobres. No final das contas, o painel surgiu todo verde e amarelo, feliz, plano e linear. Trata-se de um típico exemplo de um país que antes era “Ordem e Progresso” e agora é “Pátria Amada”.
A mentalidade autoritária é um fruto genuíno da crença no tempo linear. Como o progresso é inevitável e a evolução não pode parar, todo questionamento sobre o estado de coisas vigente é contraproducente. Por isso, sob diferentes aparatos justificativos, acredita-se na conduta por imposição. No Brasil, mais do que em qualquer outro momento desde a Nova República, governa-se por decreto. O esforço parece ser o de devolver o país ao plano natural da história. Simpático, não? Que bem-aventurança! A tragédia reside no fato de que a plateia é grande ainda, embora comece a se esvaziar. As dissidências nada mais são do que a condenação do tempo linear, de um discurso que se pretende para além das ideologias.
Sabe-se, contudo, que aqueles que negam a ideologia são os mais ideologizados. Aqueles que combatem o viés partidário dos outros desejam apenas que o seu próprio viés, mais partidário e mesquinho do que os demais, prevaleça – pode ser em nome de Deus, da Pátria ou até do alinhamento dos astros (no Brasil, hoje, tudo isso se mistura num cenário de horrores capaz de fazer inveja aos mais criativos ficcionistas).
A imagem, então, é intuitiva: automóveis hipermodernos ocupando espaços públicos abandonados, com centenas de seres humanos largados ao relento, sem trabalho nem esperança. Em imóveis decorados por designers com estágio em Amsterdã, a internet põe o mundo na tela à frente de adolescentes preocupados demais com a balada do próximo fim de semana. Na calçada do prédio de luxo, mendigos rasgam sacos de lixo à procura de comida. Em Brasília, a ordem é capturar comunistas, enquanto no restante do país o desejo é o de encontrar emprego, obter renda, tornar-se visível e poder amar sem pecado.
Pena que essa imagem em 360 graus tenha sido censurada pela diretora da escola que crê em mitos e heróis.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


