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Londrina

A CIDADE FUTURA - 4/5

m de leitura Atualizado em 03/05/2022, 15:12

O grande e necessário voo do pensamento

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de maio de 2022

Marco A. Rossi
AUTOR autor do artigo

Foto: iStock
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Fleeting memories Fleeting memories
Fleeting memories |  Foto: iStock
 

Alberto, nonagenário, raramente era indagado sobre sua visão de mundo. Sabia-se que, apesar de seu amplo leque de temas e assuntos, era um senhor anarquista convicto. Desde a infância, quando ouvia de seus pais a história da chegada da família ao Brasil, encantara-se com as lutas políticas dos anarquistas, preocupados em promover a liberdade e encerrar a exploração do homem pelo homem. Essa crença atravessou a vida de Alberto e chega ao presente bastante fortalecida.

A exploração impiedosa que se dá sob o sistema capitalista, infelizmente, não acabou. Ganhou novos contornos, parece às vezes menos intensificada, sugere até que não passa de retórica. Alberto desejou desde sempre que o mundo das mercadorias fosse superado, que as pessoas se transformassem em seres livres, autônomos e cooperativos. Alberto, enfim, ansiava por alternativa a tudo isso que a história tem registrado nos últimos 3 ou 4 séculos.

O tempo, decerto, traz inúmeras novas contribuições ao pensamento. Alberto somou às suas preocupações a questão do meio ambiente, a importância das lutas decoloniais, a afirmação cultural antirracista, a seara de reivindicações dos movimentos feministas e tantas outras coisas. Percebeu, com destacada facilidade, que tudo era também uma fonte de sentimentos anticapitalistas: novos ingredientes de mundo levam a novas receitas civilizatórias.

Os mais jovens, quando têm de caminhar por labaredas diferentes daquelas associadas às suas lutas, não contam com a mesma sorte de gente calejada como Alberto. Precisam justificar tudo para que não sejam vítimas de mal-entendidos. Se defendem, num dado momento, a democracia liberal, logo são tachados de liberais; se fazem alusão a um pensador conservador, imediatamente são tidos por convertidos ao conservadorismo. Alberto e aqueles de sua geração estão a salvo desse tipo de problema – há muita história de coerência sob suas barbas brancas.

É provável que o problema esteja no maniqueísmo que grassa no debate público contemporâneo. Ou se é azul, ou se é vermelho. Apontar a existência do verde é capitulação de um lado ou de outro. Essa forma risível de ver e entender o mundo cansa as cabeças que não limitam a realidade à capacidade humana de a conhecer. A realidade, por sua complexidade e pelas suas imprevisíveis determinações, será sempre maior que o juízo que se faz dela, independentemente de quem sejam os atores desse juízo.

Alberto, não obstante tanta experiência de vida, sabia que sua maneira de compreender o mundo à volta era limitada, deixava lacunas, não estava habilitada a entender alguns detalhes, algumas definitivas insinuações da história. Por essa razão, gostava de dialogar com os mais jovens, saber deles como veem e sentem as coisas. Alberto, numa palavra, gostava mesmo era de “pensar sem corrimão” – tinha sua própria e inquebrantável forma de conceber a vida, mas não abria  mão de alçar voo por outros céus. Era um legítimo pensador.

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