O golpe segundo a pós-verdade
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quinta-feira, 04 de abril de 2019
Marco A. Rossi 

Alberto, um homem de dois séculos, de uma coisa sabia: o tempo é a matéria-prima do bom entendimento. Ideias que surgem na juventude são encaradas de modo muito diferente na velhice. O calor, a inquietude, a fome de desvendar e compartilhar que caracterizam a jovialidade do pensar e do agir, uma vez alcançada a maturidade, mudam de temperatura, movimento e volúpia. Alberto, distante dos fenômenos de outrora, interpretava-os com profundidade e clareza. A história engana menos aqueles que aguardam sua cristalização.
Entre uma meia sola e um toque de brilho exclusivo, o velho sapateiro anarquista pôs-se a pensar em 31 de março de 1964. Ele era jovem e carregava no peito um mundo inteiro de novidades. Dias antes havia dito a um dos netos que a revolução social talvez nunca ocorresse, mas seu coração aos vinte e poucos anos era um furacão de sonhos e ímpetos justiceiros. Agora, tantas décadas depois, entristecia-se ao perceber que sombras e horrores do passado estavam sendo esquecidos ou, pior, negados.
Foi inevitável que Alberto recordasse os amigos que perdera na luta contra a ditadura civil-militar. Anarquistas, socialistas, comunistas e até liberais foram abatidos nos processos de defesa da democracia. Não havia ameaças vermelhas nem grupos políticos capazes de orquestrar a revolução no campo ou na cidade. A maneira como foram fácil e covardemente dizimados todos os núcleos de guerrilha no Brasil e a própria fragilidade das organizações da esquerda armada comprovaram isso na prática. A retórica anticomunista era balela para justificar a tomada do poder e a entrega de toda a América Latina ao domínio estadunidense naqueles anos de Guerra Fria. A nefasta combinação de pobreza estrutural e elitismo “yankee” do Brasil e da vizinhança impulsionou noites longas e muito escuras na maior parte do continente. A única coisa que estava ocorrendo de fato, como mais tarde cantou Raul Seixas, era a forte determinação de vender o país – e bem baratinho, como se constatou.
Alberto sentou-se para atenuar a dor das lembranças de censura, prisão, tortura e morte. Na universidade, onde muitos colegas eram estudantes e companheiros de seu pai se dedicavam à docência, o medo era um convidado indesejado. O pessoal do “Escola Sem Partido” da época era menos sutil: em vez de propor que professores fossem denunciados e punidos por proselitismo esquerdista, exigia que deixassem a cátedra ou os prendia, em prol da segurança nacional. Alberto sempre se interrogou por que diabos professores sempre ameaçam tanto a ordem e o progresso. Os reacionários de plantão dizem, dia sim, dia não, que a educação no Brasil não serve para nada. Ora, então por que tanta perseguição? Fascistas adoram retóricas nacionalistas, mobilizam massas por discurso de ódio, exaltam a militarização das relações sociais e defendem o extermínio da esquerda em seu amplo espectro político e ideológico. Hoje, no Brasil, refletia Alberto, a “nova direita” ama o verde e amarelo, coloniza as redes sociais por meio de mentiras e tolices, tem um mito e seus três rebentos que querem militarizar até creches e playgrounds e pregam, via astrologia travestida de filosofia, que marxistas sejam destruídos. E Alberto, então, se debatia: qual a vergonha dessa gente em ser chamada do que é de fato? O sapateiro cantarolava a canção de Caetano, aquela que fala sobre Narciso achar feio o que não é espelho...
De tanto fugirem dos livros e se indisporem com o tempo (aquele item do cardápio da vida que traz amadurecimento e inteligência), os inimigos de Alberto, que mataram ou impuseram sofrimento aos seus amigos, agora intencionam reescrever a história, conduzindo tudo sob critérios de pós-verdade. Alberto ria de modo amargo quando ouvia um defensor de 1964 falar em democracia e liberdade. Era um amargo que lembrava à alma duas décadas de atraso, um tempo em que o Brasil não pôde amadurecer, tornar-se senhor de si. O Estado que os novos direitistas tanto abominam – no discurso, é claro – cresceu feito Leviatã; o indivíduo, que os tais liberais - conservadores exaltam – no blábláblá, é lógico, – sumiu em meio à cassação crescente de direitos; as ideologias, que o youtuber da Virgínia e seu séquito de adoradores amaldiçoam – para camuflar a deles, é óbvio – sintetizaram-se no famigerado “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
Alberto se levantou, tomou um gole de café, pegou uma caneta e seu caderninho de memórias. Fez questão de registrar para seus netos e descendentes, de uma vez por todas, em letras redondas e contundentes: “O nazismo é de direita”.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


