Nada escapa ao buraco negro, cuja densidade infinita devora galáxias sem dó nem pena. Sua capacidade de acomodar corpos celestes numa “barriga sem fundo” gera perplexidade em cientistas e curiosos da vida espacial.

Em sociedade, tendências devoradoras se sucederam na história. Guerras carniceiras, cruzes impiedosas e discursos falaciosos intuíram conquistar territórios, dominar povos e saquear riquezas. A América Latina e a África têm muita coisa para contar e ensinar a respeito dessas “missões”. O fato, contudo, é que poucas empreitadas se fizeram totalizantes. Para cada época, em diferentes medidas, faltaram aliados ou fôlego. Nem o capitalismo, com sua tendência incessante à mundialização, surge absoluto no espaço-tempo: aqui e ali, ontem e hoje, há quem a ele resista e o enfrente, como se pode, na medida do impossível.

No livro “A nova razão do mundo”, publicado na França em 2009 e no Brasil em 2016, o filósofo Pierre Dardot e o sociólogo Christian Laval apontam para o neoliberalismo como uma racionalidade que invade o domínio das subjetividades e se realiza imperativamente na objetividade. Muito mais do que uma ideologia ou uma política econômica, o neoliberalismo é um destruidor de regras e formas de sociabilidade. Para o centro de seu peculiar buraco negro, empurra tudo: estratégias de vida, soberanias nacionais, leis, direitos e práticas de cidadania. No lugar, às vezes de forma debochada, coloca palavras de ordem como “sucesso”, “empreendedorismo”, “eficiência”, “meta”, enfim, a ideia de um indivíduo que se compreenda como um negócio.

Ao contrário do liberalismo clássico, que exigia um Estado afastado das relações entre indivíduos em busca da satisfação de seus interesses, o Estado na sociedade neoliberal é autoritário e está a serviço do mercado. A sanha do neoliberalismo é proibir que o Estado crie e execute políticas públicas – o que vale é a infraestrutura para os milionários deitarem e rolarem; são os aliciamentos da justiça em prol da multiplicação de fortunas e da ampliação da influência política de setores abastados; são as variadas formas de repressão contra quem luta por liberdade e igualdade. Para parcerias com o mundo burguês e com os senhores da terra, das armas e das finanças, o Estado é funcional e muitíssimo bem-vindo.

Por ser uma “visão de mundo”, o neoliberalismo prega a ineficiência do Estado social, a corrosão da política e a crença na autossuficiência individual. Como se fosse um manual de autoajuda, o pensamento neoliberal se converte em prática que (de)forma a percepção da realidade, criando ilusões e produzindo mal-estar. No limite, quando os “novos empreendedores de si” fracassam, capitulando diante da concorrência desenfreada e da bajulada meritocracia, ele adoece, recebe diagnóstico de algum tipo de síndrome ou transtorno e é medicado. Passa, então, a viver à margem de si mesmo, solitário, na escuridão do buraco negro.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]

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