CIDADE FUTURA -

O brasileiro que sabia tudo


 

O brasileiro que sabia tudo
Paulo Cerciari/Folhapress)
 



Já escrevi aqui na coluna que, em virtude da polarização ideológica contemporânea, sinto muita saudade de José Guilherme Merquior. É bom saber que existiram intelectuais públicos com a verve para a polêmica e, ao mesmo tempo, a criação. Merquior gostava de um bom debate e se preparava para encará-lo. O sociólogo francês Raymond Aron dizia que ele era o “garoto que leu tudo”.



O autor de “O argumento liberal” entendia que as ideias têm valor próprio e dizem muito sobre quem as enuncia. Hoje, à direita e à esquerda do espectro político, as ideias parecem não cumprir esse papel valorativo. No lugar dos fatos, excedem-se as narrativas sobre o mundo, que tratam de todas as coisas, menos da realidade.


Na última fase de sua vida, Merquior se debruçou sobre a história do liberalismo, e compôs uma obra seminal, “Liberalismo: antigo e moderno”, que foi publicada em 1991, alguns meses depois de sua precoce morte, aos 49 anos, em janeiro daquele ano. Até hoje o livro é referência para quem quer entender o liberalismo no plural. O autor de “Razão do Poema” não se contentava com estereótipos. Levava a sério o ofício de ler, estudar, debater em bom tom – essas atitudes honestas de que tanto sentimos falta hoje em dia.


Merquior faria, em 2021, 80 anos de idade. Quem lê seus escritos em livro ou colunas de jornal não pode deixar de se perguntar o que ele estaria escrevendo e dizendo hoje. De criticidade aguda e capacidade de respeitar seus interlocutores mesmo em meio a grandes controvérsias, Merquior é uma luz no fim do túnel (que não é a do trem na contramão). Suas ideias iluminam o passado e, ainda, as alternativas nas quais o Brasil poderia apostar algumas de suas fichas.


Merquior era um liberal social-democrata, como ele gostava de dizer. Seu liberalismo não era um espantalho em favor de Estado ausente e Mercado onipotente. Desse tipo de infantilismo ele não se valia. São célebres e bastante atuais as frases com que definiu o “seu” liberalismo: “O liberalismo moderno é um social-liberalismo; é um liberalismo que não tem mais aquela ingenuidade, aquela inocência diante da complexidade do fenômeno social, e em particular do chamado problema social, que o liberalismo clássico tinha. O liberalismo moderno não possui complexos frente à questão social, que ele assume. É a essa visão do liberalismo que eu me filio.”


Em sua obra, o combate ao irracionalismo era a marca preponderante. Um neoiluminista de mão cheia, Merquior acreditava que os problemas humanos podem ser encarados de forma racional e diligente; defendia o postulado segundo o qual o progresso pode ser uma conquista para todas as pessoas, que irão definir prioridades e encaminhamentos às descobertas do melhor do espírito humano. Merquior era um perfeccionista, em busca da excelência da vida e das ideias.


Penso que Merquior pode ser lido hoje de modo ainda mais fecundo do que outrora. Como dizia Nelson Rodrigues: “Alguém dirá que somos todos analfabetos: nem todos. Há, pelo menos, um brasileiro, o José Guilherme Merquior, que sabe tudo.”

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