Dos conceitos de Walter Benjamin (1892-1940), “rememoração” é o meu favorito. Trata-se da ideia segundo a qual é preciso voltar-se para trás a fim de que o presente possa gerar o futuro. Um olhar cauteloso, digno, capaz de admitir que as lutas travadas no presente têm ancestralidade.

Num eventual futuro humano – ou seja, na realização da utopia –, as gerações do passado serão libertadas pela ação política posta em prática no momento presente. É no “tempo-do-agora” que vive a esperança. Ela está tanto no que foi ou poderia ter sido quanto no horizonte sonhado, na síntese de todos os tempos históricos que se realiza a cada instante.

É no presente que o passado se encontra – e o futuro só se vê do lugar onde se está. Por isso, o destaque do agora é fundamental: cada geração é tributária das anteriores, ao mesmo tempo que é a única força política capaz de antecipar o futuro. Deter a catástrofe é responsabilidade dos presentes, em memória daqueles que ficaram no passado e em nome de algum futuro possível. A revolução, vale insistir, é um freio de emergência, que impede a barbárie e dignifica as lutas históricas por liberdade e igualdade.

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.. | Foto: iStock

Antônio Carlos Jobim, o Tom, teria dito que o Brasil não é para amadores. Impossível discordar. Entre nós, sempre para o mal, dá a última cartada na política um tal de “Centrão”, que, a propósito, é de direita. Para o mais alto posto da vida nacional é conduzido um elogiador de um passado requentado, trazido à tona por narrativas falaciosas e muita besteira virtual. A parte do passado que queriam que esquecêssemos governa o país, ladeada por oportunistas e familiares que a consideram um “mito”. A mitologia, relembremos, é criação fabulosa para explicação da realidade. Em si, ainda que bem-vestida e carregando boas intenções, não representa a verdade: sobrevive graças ao apagamento da memória e à transferência de responsabilidade da coletividade para algum improvável “Salvador da Pátria”.

Como lidar com discursos que negam a ciência e asseguram não pertencer à política? Como aceitar que o passado transfigurado governa o presente angustiado e promete ser um futuro temerário? Por que, no plano mais elementar da coexistência, a gravidade de uma pandemia é ignorada em favor de gente alucinada que se automedica e pensa ser imune a todo azar? Há mais perguntas, muitas mais. E poucas, pouquíssimas boas respostas.

Um presente ainda racista não acertou contas com mais de 350 anos de escravidão. Um presente que assassina o futuro (jovens pretos, membros da comunidade LGBT, mulheres de todas as idades) tem medo de rememorar, de acatar sua história e, a partir dela, ir além. Uma nação administrada por amadores não tem como libertar o passado nas lutas do presente. É mais fácil varrer toda a sujeira para debaixo do tapete e fingir que vivemos numa pátria amada de sujeitos de bem.

O Brasil talvez não seja compreensível nem aos olhares mais experientes. Walter Benjamin, uma mente iluminada, teria desistido de nós.

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