O amor como revolução
“Jesus, em todos os sentidos, foi um subversivo, que ousou destacar o amor e a compaixão em tempos de ódio e egoísmo”
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de julho de 2019
“Jesus, em todos os sentidos, foi um subversivo, que ousou destacar o amor e a compaixão em tempos de ódio e egoísmo”
Marco A. Rossi 
Nestes tempos de extremismos beligerantes, em que ideias são vistas como armas perigosas e armas de fogo são transformadas em ideias de paz, um bom livro pode mudar o rumo da prosa. “O amor como revolução”, de Henrique Vieira, pastor da Igreja Batista do Caminho, nascido em Niterói, em 1987, e criado sob a luz de um Evangelho da diversidade, é uma obra que aquieta o espírito, renova o pensamento e rejuvenesce a esperança.

Lançado pela Editora Objetiva, agora em 2019, o livro é uma tentativa de obstruir os dispositivos de ódio que se assenhoraram da sociedade brasileira nos últimos anos, não obstante suas raízes estejam em todo o processo cultural de formação do País. Por dispositivos deve-se entender o conjunto de discursos que legitimam certas crenças e práticas.
Os dispositivos de ódio, nesse sentido, são produtos históricos que mergulham na mentalidade nacional, definindo de maneira arbitrária e violenta – moralista, via de regra – os espaços que poderão ser ocupados por uns e outros, as formas de vida que serão vistas como corretas ou perversas, os hábitos e costumes que merecerão aplausos ou repúdio.
Henrique Vieira, numa rica síntese entre o singular e o universal, narra sua experiência de desamparo para construir edifícios coletivos de luta e perseverança. O desamparo, diz ele, é inevitável na travessia humana, uma vez que estar sozinho muitas vezes se confunde com solidão.
Nos momentos mais difíceis de sua vida, do desengano médico à perda de familiares e amigos, Henrique Vieira aproximou-se mais e mais de uma fé que aposta na comunhão, na partilha e no bem viver; afasta-se, portanto, do preconceito, da ganância e do estilo de vida que anula o humano e condecora a mercadoria.
Nunca esteve sozinho. Cercado do amor de amigos e parentes, aprendeu em comunidade o verdadeiro sentido da vida. Ao mesmo tempo, sempre alimentou a solidão, cuja ambiguidade permite a meditação, o estudo, o fortalecimento de identidades e convicções. Somente teme a solidão aqueles que não têm boas ideias, arte, cultura e fé como companheiras.

Em “O amor como revolução”, Henrique Vieira denuncia que o cristianismo esconde Jesus Cristo quando se cala diante das inúmeras violências contra negros, mulheres, indígenas, LGBTs e refugiados. Ao não se voltar contra a destruição da natureza, a hierarquização entre os seres humanos e a defesa de verdades que condenam os diferentes como doentes e perdidos, o cristianismo se livra de Jesus e traz à lume sua faceta intolerante e arrogante, para a qual um beijo gay assusta muito mais do que assassinatos e conversão de gente em objeto para compra e venda.
Segundo Vieira, esses modernos dispositivos de ódio – que se articulam em múltiplas formas de fundamentalismo – matariam novamente Jesus. O jovem filho de Maria e José, vale lembrar, foi preso, torturado e morto por estar ao lado daqueles expurgados pelos poderosos sempre a serviço das “pessoas de bem”. Jesus, em todos os sentidos, foi um subversivo, que ousou destacar o amor e a compaixão em tempos de ódio e egoísmo. Henrique Vieira pergunta: “Ao lado de quem Jesus caminharia hoje?”
O perdão é uma dádiva e desumanizar o inimigo é, portanto, um erro. Henrique Vieira pede que sejam incluídos em todas as orações aqueles que idolatram blasonadores, elogiam torturadores e usam em vão o nome de Deus, corroendo corações distraídos. Afinal, quem pensa com o fígado e sente com o ranger dos dentes não tem paz interior e vive nas trevas.
Só o amor não privatizado, que ultrapassa os limites da cegueira individual e momentânea, abraçando os povos do mundo e a utopia por uma igualdade libertária, pode revolucionar a mente humana e destruir os dispositivos de ódio. Assim, a herança de Jesus Cristo, Francisco de Assis, Martin Luther King, Chico Mendes, Dorothy Stang, Marielle Franco e tantas outras personalidades de amor e luta poderá ser matéria-prima de convergências que aqueçam e aliviem, na unidade do diverso.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


