Nada pensam, logo gritam e xingam
De repente, ouviu uma gritaria verde-amarela, gente demonizando a política, a justiça, a educação, tudo.
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quinta-feira, 11 de abril de 2019
De repente, ouviu uma gritaria verde-amarela, gente demonizando a política, a justiça, a educação, tudo.
Marco A. Rossi 

Alberto estava perdido. Relia “1984” em busca daquela frase sobre quem controla e prediz o tempo. Depois de alguns dias relendo o livro que fora tão impactante em sua juventude, encontrou o que queria. Após a Segunda Guerra, num clima que antecipava de modo vertiginoso as tensões e os conflitos da longa Guerra Fria, Orwell escreveu: “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”.
A fórmula era, apesar das ambiguidades interpretativas, muito simples e denunciava a mentalidade autoritária que se desenrolaria século 20 afora. Mudar o passado era complicado. Na verdade, impossível. A estratégia dos donos do mundo passaria a ser, então, fazer do presente um tempo eterno – tudo que existiu ou existirá será definido agora, numa nova linguagem, numa narrativa que se converterá em imagem cerebral da vida e da história. O tempo, enfim, seria pausado. Alberto pensava sobre o Brasil contemporâneo e criava inúmeras conexões com a distopia de Orwell.
Num domingo recente, Alberto saíra para passear com os netos pelas ruas da cidade. De repente, ouviu uma gritaria verde-amarela, gente demonizando a política, a justiça, a educação, tudo. Aqueles que discursavam exalavam ódio e ignorância; a plateia, minguada e desanimada, aplaudia meio constrangida cada palavra de ordem, toda blasfêmia antidemocrática. Alberto dizia aos netos que, em seus melhores anos de anarquista, era obrigatório que oradores e militantes, não importava a ideologia, estudassem muito e afagassem a inteligência. Era um compromisso intersubjetivo. Hoje, qualquer um podia dizer a maior das besteiras e ainda ser alçado à condição de filósofo.
Com “1984”, o romance fantástico, Alberto aprendera também a ideia de duplipensar, um fenômeno que permitia aos indivíduos o cultivo de crenças e valores contraditórios ao mesmo tempo, sem ressalvas nem consequências. A atual era de incertezas e indeterminações combinava retórica democrática e amor a ditaduras; desejo de censura a professores e devoção às liberdades de opinião e expressão; exigência de educação sem doutrinação esquerdista e propagação de delírios reacionários nos espaços públicos; ofensas à ignorância alheia e revisionismo criminoso de fatos históricos, com direito à filiação de Hitler ao Partido Comunista e à qualificação da tortura e da cassação das liberdades como um “mal necessário”.
O duplipensar anulava a reflexão crítica e a capacidade de observar, comparar, separar e definir categorias e conceitos. Um amontoado de bestas e uma tempestade de besteiras haviam tomado o Brasil de assalto, pelas vias da pós-política e amparados no submundo das redes sociais. De repente, comemorava Alberto, aquela gente precisou sair à superfície para respirar. Aí, não houve jeito: sua indelicada, pesada e desamorosa essência apareceu – e as conexões de sentido voltavam a povoar velhos espaços de troca de ideias e visões de mundo. O duplipensar não resiste às exigências democráticas, uma vez que revela ser, fundamentalmente, um nada pensar.
Um dos netos, o menor deles, perguntou ao avô Alberto o que ele achava daquelas pessoas que xingam os artistas por causa dos papéis que interpretam nas novelas. O destemido sapateiro anarquista – que nunca se beneficiou de dinheiro algum que não fosse fruto do suor de seu rosto – pensou, pensou e, com alguma insatisfação no olhar, concluiu:
Sabe, meu querido e sabido neto, elas são como os indivíduos dos gritos verde-amarelos: insultam um país que só existe na cabeça deles e pensam que podem vender a verdade negociando com a mentira. Eles certamente espancariam um bandido de novela na rua, convencidos de que estariam fazendo justiça.
Alberto abraçou o neto, reuniu toda a garotada em torno de sua poltrona e começou a ler um livro para as crianças. Era chegada a hora do alívio emancipador da arte.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL - [email protected]


