No Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, está em cartaz a exposição “Mariana”, de Christian Cravo. Trata-se de fotografias que, transformadas em arte, oscilam entre a poesia do olhar sensível e a dor de quem perdeu tudo sob a lama gerada após um rompimento de barragem que poderia ter sido evitado. A tragédia de Mariana, em Minas Gerais, ocorrida no final de 2015, é considerada, pelo CNDH (Conselho Nacional de Direitos Humanos), uma “violação excepcional”, um “crime contra a humanidade”.

Imagem ilustrativa da imagem Mariana, a terra do sempre
| Foto: iStock

As fotografias de Cravo revelam desde um par de escovas de dente – objetos de sobrevivência amorosa – até as estatuetas de São Gabriel Arcanjo e Nossa Senhora da Aparecida, as quais, com todo o seu apelo de fé, não puderam impedir a barbárie. Há na exposição imagens de armários, mesas, sapatos, tudo que traz à memória a existência simples de quem residia ao pé da crônica de uma morte anunciada. Mariana, o crime, é resultado de um país que privatiza sonhos e mercantiliza a vida, tornando tudo descartável.

Prevalece o marrom do caos, com raios de cor e luz, na arte de Christian Cravo. A ideia talvez seja declarar que a esperança, por mais maltratada que seja, não pode nos deixar. Sem a esperança, resta-nos nada em tempos de obscuridade e dor. Quase tudo que importa neste país – a cultura, a ciência, a educação, a saúde e a decência de quem ocupa lugar na vida pública – está ameaçado de extinção. Aquilo que foi instrumento de democratização das sociedades ocidentais, num longo e tortuoso caminho de socialização de bens materiais e simbólicos, vem sendo desprezado. O enfermo país do agora parece uma grandiosa negativa à nação do amanhã. A exposição de Christian Cravo, não obstante o roteiro áspero, intui impedir mais essa fatalidade.

A esperança que não morreu em Mariana mantém seus sentidos atentos e protege terras indígenas e quilombolas, defende direitos de cidadania e impulsiona a disposição para as lutas de resistência. Em Mariana, terra de Maria, a destruição pode ser reconstrutora: não mais se aceitará que a questão ambiental seja marginal nas preocupações de Estado e nas leituras de mundo da sociedade civil. Com isso, voltam à luz os ideais de Chico Mendes e as ações certeiras de Francisco Julião – a terra, de Maria e de todos, volta a ser tema urgente para pensar um país menos injusto e violento.

Mas em Mariana, aquela cidade que sobrevive na arte de Christian Cravo, existe o registro imaginário de gente como Paulo, mestre de quem vive para educar; Dandara, símbolo de coragem sem limites; Raoni, reflexo da coerência; Armênio, serenidade e inspiração; Betinho, força frágil da solidariedade; Aparício, o riso jocoso de quem não tem medo do poder. E mais, muito mais.

Enfim, Mariana, naquilo que foi e é, será sempre acusada de terra dos energúmenos pelos verdadeiros e contumazes energúmenos. Mariana, a exposição de Cravo, é o espelho em que monstros não querem se ver, para não se lembrarem do que são e jamais deixarão de ser. Mariana é a terra do sempre.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]

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