Irmã Dulce, a dimensão prática do amor
“Irmã Dulce é transformada em santa num momento em que sua história se converte em antídoto contra a sordidez e em esperança contra a barbárie”
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quinta-feira, 24 de outubro de 2019
“Irmã Dulce é transformada em santa num momento em que sua história se converte em antídoto contra a sordidez e em esperança contra a barbárie”
Marco A. Rossi 
É longa a tradição de debates sobre as relações entre fé e ação. Para que alguém seja digno da vida eterna, basta a fé? Ou é pela ação que as pessoas de fato se revelam e merecem ser reconhecidas? Mentes e corações vêm se dividindo na história das ideias quando o assunto é a ponte que liga a Terra ao Paraíso. Mais do que isso: as contendas questionam se não é por aqui, sobre o chão que se pisa, que a fé deve se mover, articulando o pensamento e sua efetivação.

Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes (1914-1992) – conhecida em todo o mundo como Irmã Dulce, a primeira santa brasileira – fez de sua existência uma verdadeira dimensão prática do amor. Desde menina, quando passeava pelas ruas de Salvador com a mãe, indignava-se com a pobreza e transferia para si a dor dos outros. Mais tarde, já como missionária, ampliou seus vínculos com as pessoas mais necessitadas. Ecumênica e dona de um estilo singular de dialogar, Irmã Dulce não tinha preconceitos: aproximava-se das lideranças das religiões afro-brasileiras, cobrava de políticos que destinassem recursos à ação social e se dirigia, em oração, a Santo Antônio, para que abençoasse os humildes, salvasse vidas, desse novas oportunidades a quem precisasse. Santa Dulce dos Pobres, o “anjo bom da Bahia”, fez mais pela fé cristã do que séculos de uma retórica moralista interessada em separar a fé da ação, reduzindo a Igreja Católica a uma minoria de privilegiados insensíveis e hipócritas.
Irmã Dulce não perguntava se “seus pobres” acreditavam em Deus. Acolhia-os onde pudesse. De um galinheiro, no quintal do convento, ergueu um hospital. Com o tempo, transformou singelos pratos de canja em obras que até hoje dão garantia de paz e dignidade a milhares de seres humanos. Irmã Dulce era uma mulher admirada tanto por sua coragem quanto pela imensa capacidade de clamar por justiça. Não falava em caridade, mas, sim, em direitos. Ela não via nada de “natural” na desigualdade que escancarava a miséria. Por isso, a ação que pudesse superar a carestia devia ser vista como uma escolha. Irmã Dulce, seguindo os ensinamentos de Jesus, optou por fazer de sua missão um “ato de fé”, ou seja, uma crença que se materializou nos esforços para projetar neste mundo um pedaço do céu. Irmã Dulce era, pois, adepta de uma velha máxima da mitologia bantu: “Quando juntar as mãos para rezar, mexa os pés e caminhe”.
De fundadora de movimentos operários a ocupante de imóveis que tivessem condições de oferecer moradia aos pobres, Irmã Dulce abraçou os marginalizados, sem jamais sobrepor a lei e a ordem que agraciavam uns poucos às necessidades humanas de multidões. Humilde, dizia que nada fazia. Deus era o protagonista de tudo. Para Irmã Dulce, portanto, era Deus quem socorria os pobres e se aliava aos subalternizados, beijava a face humana de luz que há em cada criança, mulher ou ser que, aturdido pelas injustiças (nunca naturais), procurava alívio na fé que ergue obras e transforma orações em abrigos, hospitais e escolas. A fé de Irmã Dulce será sempre um exemplo grandioso de que a esfera da gratuidade deve ser a dimensão mais fortalecida da verdadeira prática cristã.
“Ama o próximo como a ti mesmo”. Irmã Dulce tinha esse ensinamento como bússola. E dizia que o amor ao próximo não pode ser reduzido à reza de um terço ou a um simples bem-querer. Para ser amor, o sentimento precisa se metamorfosear em afetos duradouros, partilhas, grandes envolvimentos. Nesse sentido, a santidade de Irmã Dulce está naquilo que pensou e fez, criou e repartiu – nada mais oportuno em tempos de fé oca, que se locupleta mais em perseguir o próximo do que amá-lo; que se alia aos ricos e abandona os pobres; que fala, fala, fala (mente, mente, mente) e nada faz. Irmã Dulce é transformada em santa num momento em que sua história se converte em antídoto contra a sordidez e em esperança contra a barbárie.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


