Santo Agostinho, ilustre pensador cristão do quarto século, nascido no atual território da Argélia, na África, dizia que o mal, como fenômeno em si, inexiste. Só é possível cogitar sua presença – ou sua ilusória e assustadora sombra – onde o bem está ofuscado pela desesperança. As raízes do mal, portanto, se estendem entre os humanos que deixaram de seguir as lições das filhas gêmeas da esperança, a saber: a indignação e a coragem.

Imagem ilustrativa da imagem Invisíveis nem no escuro
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A negação da coragem é a covardia, uma atitude típica daqueles que se assenhoram do mal e se beneficiam, de modo direto ou indireto, de um bem escusado, traído à luz do dia. Covardes são aqueles que mentem, manipulam, vendem-se de uma maneira e são, em verdade, de outra; alimentam-se da promoção do conformismo, o qual aliena e machuca, aprisiona e mutila.

Sem a coragem, a indignação é inócua. Afinal, contra o que se insurgir se tudo parece na mais perfeita harmonia? Para que estimular rebeldias num mundo em que a realidade é celebrada como imutável? Ao lado da covardia, o cinismo produz seus danos na consciência de homens e mulheres que se deixam levar pela paralisia do tempo histórico e passam a defender que o presente é o único dos instantes verbais. Sem coragem nem indignação, os prazos de validade da utopia expiram imediatamente.

Falando em utopia, poucas palavras se tornaram tão incompreendidas quanto ela. Num certo sentido, em ambientes agora hegemonizados pela mentalidade retrógrada, a utopia se converteu em sinônimo de malevolência. Dizem os infantes reacionários que o pensamento utópico só carrega tragédias, “prometendo paraísos terrestres e construindo, de fato, infernos tenebrosos”. As aspas admitem o caráter terceirizado da expressão, mas lamentam não identificar, com precisão, autoria e residência, uma vez que o fragmento de sentença já se tornou um triste lugar-comum.

É de imaginar quantos dos novos inimigos da utopia leram e entenderam os escritos de Morus, Campanella, Rabelais, Saint-Simon, Fourier, Owen e Proudhon, para citar só os mais conhecidos dos “utopistas”. O que se percebe com nitidez é que o destrato da utopia se baseia em orelhas e quartas-capas de proselitistas de direita que leram (se é que leram) Orwell e Huxley e absolutamente nada entenderam. A utopia moderna vem do século XVI, deita raízes na Antiguidade Clássica e se aproxima em múltiplos tons das narrativas religiosas de todos os tempos. O ódio às utopias é também o horror à esperança, isto é, uma franca opção pelo conformismo triunfante e pela covardia descarada.

O Brasil atual é o ocaso das utopias. Nas altas cúpulas do poder, pensam reinar soberanos indivíduos que não têm mínimas condições de conduzir uma Kombi por ruas desertas. Em sua ignorância colossal, blasfemam contra tudo que seja ciência, história, direito e cidadania, apoiando-se em livros que não leram, autores que não conhecem e culturas que não respeitam (traços “qualitativos” de seu inegável anti-intelectualismo). No staff, blogueiros, youtubers, haters e adeptos da novilíngua terraplanista prometem xingar, ameaçar e atacar quem se impuser contra sua distopia de covardia e cinismo.

Mal sabem que a esperança e a utopia, velhas companheiras de longas viagens, não são invisíveis nem no escuro.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]

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