Há tanta vida lá fora
“Já faz um bom tempo que conversar sobre política, economia ou cultura virou uma batalha em campo minado”
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de agosto de 2019
“Já faz um bom tempo que conversar sobre política, economia ou cultura virou uma batalha em campo minado”
Marco A. Rossi 
O hábito de rotular as pessoas não é novo. É lugar-comum depositar os outros em caixinhas, desprezando-os por não fazerem parte do “nosso” time. Se a insistência em determinar o próximo e o distante é desagradável e, em alguma medida, patológica, o que dizer dos sujeitos que se autorrotulam a toda hora, marcando posição, reiterando “compromissos”, tentando se impor como isto ou aquilo?
É preocupante que, para poder fazer parte de alguma ciranda, alguns indivíduos tenham de arrotar ser “de esquerda” ou “de direita”, “conservadores” ou “liberais”, favoráveis ou não ao aborto, à pena de morte, à destruição da democracia etc. Decerto, não existe neutralidade. Mas quando uma ideia fixa se crê dispensada de argumentações, ela obstrui o diálogo e recria mais um Fla-Flu que terminará, inevitavelmente, com a derrota de todos.
Já faz um bom tempo que conversar sobre política, economia ou cultura virou uma batalha em campo minado. Basta que se declare gosto por um filme, um álbum musical ou uma peça literária para que surjam os rotuladores, aqueles que saem às ruas (ou se conectam à internet) com maquininhas de colar adesivos ideológicos nos outros, definindo quem está certo, quem está errado e quem merece sobreviver ou não. “Crê em ‘meu’ Deus? Votou em ‘meu’ candidato? Apoia o ‘meu’ governo? Não?! Então você está fora!” Assim se articulam os novos bestializados.
A crença na pureza de ideias tem lastro na história e, invariavelmente, não termina nada bem. Os culpados pelo contágio daquilo que deveria permanecer imune a impurezas costumam queimar em fogueiras ou morrer em câmaras de gás. Hoje, na chamada “era da informação” e da “comunicação virtual”, uma boa surra de comentários infames nas redes sociais é suficiente para que se perceba de que lado se deveria estar num e noutro assunto. A covardia, afinal de contas, é signatária da estupidez.
Os rotuladores (e ainda mais os autorrotuladores) misturam de maneira atroz as esferas pública e privada. Adoram expor sua intimidade em público, ao mesmo tempo que se excitam por tornar pública uma questão de mera opinião privada. Vicejam as irrelevâncias, seletividades e mentiras. Para desespero de uma democracia que agoniza, o mundo virou um diário de intrigas, ressentimentos e galhardias. De “youtubers” desesperados (contas para pagar?) ao presidente da República, palavras proferidas só expressam ironias malconformadas e ofensas descabidas. Como a obrigatoriedade do bom senso está suspensa por tempo indeterminado, rasgam-se os mapas da credibilidade. Num passado de triste memória, a imprensa estampava receitas de bolo para fugir à censura e denunciá-la; no presente, preces de pura desfaçatez conclamam retaliações e exigem que o Estado reinvente a sociedade, arbitrária e impunemente.
A ausência de um conhecimento mais sensível e desinteressado (humano, em síntese) tem arrolado ojeriza às letras, às artes, ao conhecimento que descoloniza corpos e mentes. No lugar da abertura para a vida, cresce a ode à guerra, às armas, à criação fantasmagórica de inimigos. O abismo de vidas ocas parece não ter fim quando, na diplomacia brasileira, em cujos postos de formação e representação já estiveram Joaquim Nabuco, Afonso Arinos e José Guilherme Merquior, por exemplo, confeccionam-se espaços para abrigar favoritismo parental, despreparo e molecagem.
É preciso, como ensinam os povos autóctones latino-americanos, que aprendamos o “buen vivir”. Não existe sentido na busca por ostentação material e na autoexposição do caráter (ou, mais comumente, da inexistência dele). O “buen vivir” requer a capacidade de formularmos alternativas às alternativas que se apresentam como únicas, admitindo que há algo de muito podre num modelo de vida que desperdiça a experiência, anula a compaixão, proíbe o reconhecimento do outro e fustiga a inteligência humana.
Abramos as caixas em que fomos depositados. Há tanta vida lá fora.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


