Fantasmagoria à brasileira
“O bizarro momento brasileiro tornou-se campo fértil para todo tipo de especulação sobre o destino da nação”
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de maio de 2019
“O bizarro momento brasileiro tornou-se campo fértil para todo tipo de especulação sobre o destino da nação”
Marco A. Rossi 
Toda vez que uma ideia lamentável se faz realidade e, logo em seguida, fica mal das pernas, pior ainda da cabeça, têm início as teorias conspiratórias e as demonstrações variadas de alucinação individual e coletiva. O bizarro momento brasileiro tornou-se campo fértil para todo tipo de especulação sobre o destino da nação.

Como costuma dizer o experiente jornalista Mino Carta, até no mundo mineral era previsível o amontoado de insanidades que rondam, como um velho espectro, a política no país. Sem projeto nem lastro em lutas políticas orientadas por valores e aspirações de grupos e classes, os atuais detentores do poder central vivem a deflagrar batalhas contra inimigos inexistentes, contando com a anestesia geral aplicada na frágil e volúvel “opinião pública” (as controvérsias pertinentes em torno do uso dessa expressão exigem o uso preventivo das aspas).
Apoiados de maneira capenga nos defensores da bala, do boi e do pior da enganação religiosa, os ocupantes do poder executivo em Brasília vivem seu conto de fadas, caçando comunistas, globalistas, “abortistas”, “gayzistas” e tudo o mais que cheire a “marxismo cultural”, seja lá o que isso queira dizer. Trata-se de uma fantasmagoria, como ensinou Walter Benjamin, associada a um passado não esclarecido, a uma violência nunca admitida, a mentiras convertidas em verdade e jamais questionadas. A anuência de um imenso auditório de cegos, surdos e loucos aplaude a barbárie como se estivesse à frente da redenção. Nos momentos mais tensos, quando percebe não haver saída para a aberração que permitiu crescer, apela para tramas inconfessas, bastidores apodrecidos, o velho que não deixa o novo vingar. Seria até um bom roteiro de ficção científica se aqueles que se dizem representantes do novo na política brasileira não fossem, de fato, corpo e alma do que de mais caduco há em nossa história.
De longe (pura conveniência), um rapineiro de lugares comuns e ódios prontos, autodeclarado filósofo e líder de um rebanho de ressentidos e autoindulgentes, mantém a fogueira acesa, jogando lenhas de dissonância e destempero na antessala dos conflitos políticos. Alguns de seus discípulos cobrem a retaguarda: ocupam pastas ministeriais e adotam políticas de perseguição, preguiça e uso criminoso de dados incorretos e informações adulteradas; habitam as redes sociais e passam dias intermináveis gravando vídeos para a internet, numa clara demonstração de tempo ocioso e financiamentos suspeitos; mergulham em seus blogs e espaços de comunicação para ultrajar a inteligência e orar para a padroeira da barbárie, entidade que lhes empresta fôlego, perversidade e um cinismo aterrorizante. É possível que algo de essencial da democracia brasileira, conquistada sob sangue, suor e lágrimas, tenha se perdido para sempre. Ainda que tudo isso logo termine – e vai terminar! –, a sombra do medo irá permanecer por muito tempo nos sonhos de justiça, liberdade e fraternidade. Como uma assombração, essa fantasmagoria terá idas e vindas, erguida sobre a má-fé, a covardia e os particularismos daqueles que nunca viram nada que se posicionasse do outro lado de suas ruas.
A fantasmagoria à brasileira, uma espécie de fetiche neoliberal de indivíduos que veem o inferno somente nos outros, oscila entre a admissão de que nada sabe, nada pode, nada fará e a transferência de responsabilidade impressa em seu DNA para militares, marxistas, esquerdistas, antipatriotas etc. A saída pela direita logo dará no abismo. Aos democratas, mais uma vez, caberá reconstruir o país.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


