Toda vez que uma ideia lamentável se faz realidade e, logo em seguida, fica mal das pernas, pior ainda da cabeça, têm início as teorias conspiratórias e as demonstrações variadas de alucinação individual e coletiva. O bizarro momento brasileiro tornou-se campo fértil para todo tipo de especulação sobre o destino da nação.

Imagem ilustrativa da imagem Fantasmagoria à brasileira
| Foto: Shutterstock

Como costuma dizer o experiente jornalista Mino Carta, até no mundo mineral era previsível o amontoado de insanidades que rondam, como um velho espectro, a política no país. Sem projeto nem lastro em lutas políticas orientadas por valores e aspirações de grupos e classes, os atuais detentores do poder central vivem a deflagrar batalhas contra inimigos inexistentes, contando com a anestesia geral aplicada na frágil e volúvel “opinião pública” (as controvérsias pertinentes em torno do uso dessa expressão exigem o uso preventivo das aspas).

Apoiados de maneira capenga nos defensores da bala, do boi e do pior da enganação religiosa, os ocupantes do poder executivo em Brasília vivem seu conto de fadas, caçando comunistas, globalistas, “abortistas”, “gayzistas” e tudo o mais que cheire a “marxismo cultural”, seja lá o que isso queira dizer. Trata-se de uma fantasmagoria, como ensinou Walter Benjamin, associada a um passado não esclarecido, a uma violência nunca admitida, a mentiras convertidas em verdade e jamais questionadas. A anuência de um imenso auditório de cegos, surdos e loucos aplaude a barbárie como se estivesse à frente da redenção. Nos momentos mais tensos, quando percebe não haver saída para a aberração que permitiu crescer, apela para tramas inconfessas, bastidores apodrecidos, o velho que não deixa o novo vingar. Seria até um bom roteiro de ficção científica se aqueles que se dizem representantes do novo na política brasileira não fossem, de fato, corpo e alma do que de mais caduco há em nossa história.

De longe (pura conveniência), um rapineiro de lugares comuns e ódios prontos, autodeclarado filósofo e líder de um rebanho de ressentidos e autoindulgentes, mantém a fogueira acesa, jogando lenhas de dissonância e destempero na antessala dos conflitos políticos. Alguns de seus discípulos cobrem a retaguarda: ocupam pastas ministeriais e adotam políticas de perseguição, preguiça e uso criminoso de dados incorretos e informações adulteradas; habitam as redes sociais e passam dias intermináveis gravando vídeos para a internet, numa clara demonstração de tempo ocioso e financiamentos suspeitos; mergulham em seus blogs e espaços de comunicação para ultrajar a inteligência e orar para a padroeira da barbárie, entidade que lhes empresta fôlego, perversidade e um cinismo aterrorizante. É possível que algo de essencial da democracia brasileira, conquistada sob sangue, suor e lágrimas, tenha se perdido para sempre. Ainda que tudo isso logo termine – e vai terminar! –, a sombra do medo irá permanecer por muito tempo nos sonhos de justiça, liberdade e fraternidade. Como uma assombração, essa fantasmagoria terá idas e vindas, erguida sobre a má-fé, a covardia e os particularismos daqueles que nunca viram nada que se posicionasse do outro lado de suas ruas.

A fantasmagoria à brasileira, uma espécie de fetiche neoliberal de indivíduos que veem o inferno somente nos outros, oscila entre a admissão de que nada sabe, nada pode, nada fará e a transferência de responsabilidade impressa em seu DNA para militares, marxistas, esquerdistas, antipatriotas etc. A saída pela direita logo dará no abismo. Aos democratas, mais uma vez, caberá reconstruir o país.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]

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