Eu 'ganhou', p#rr@!
“O mundo todo anda às turras com a inteligência e de mãos dadas com a barbárie: desastres ecológicos, inchaço da mentalidade fascista, destemperança neoliberal, revigoramento dos fundamentalismos religiosos e ideológicos”
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quinta-feira, 15 de agosto de 2019
“O mundo todo anda às turras com a inteligência e de mãos dadas com a barbárie: desastres ecológicos, inchaço da mentalidade fascista, destemperança neoliberal, revigoramento dos fundamentalismos religiosos e ideológicos”
Marco A. Rossi 
Com seu quase século de vida, Alberto nunca acreditou no fim da história. Sabe quanto é provisório cada capítulo da aventura humana. De tempos em tempos, ao sabor de brisas, tempestades ou tsunamis, os sentidos da vida se alteram e se tornam cada vez mais dinâmicos e plurais. A busca de todo indivíduo, portanto, é por um (ou alguns) desses sentidos para a sua existência.
Alberto anda confuso ultimamente. Nem desconfia de como deve classificar o que está ocorrendo no Brasil. O mundo todo, é verdade, anda às turras com a inteligência e de mãos dadas com a barbárie: desastres ecológicos, inchaço da mentalidade fascista, destemperança neoliberal, revigoramento dos fundamentalismos religiosos e ideológicos. A realidade tornou-se um desafio e tanto. E Alberto, apesar da longa trajetória, sente-se incomodado, não consegue rir nem chorar. Riso e lágrimas permanecem obstruídos nestes tempos tão dolorosos.
A herança anarquista que carrega no peito faz de Alberto um sujeito visceral. As difíceis lutas travadas no curso de décadas levaram-no a constatar que, em muitos lugares antes indesejáveis, residem lições extraordinárias de vida. É o caso, para ficar em um só, da política feita pelos políticos, esses seres em geral de tão pouco afeto a dar e receber.

Alberto pensa em nomes tão distintos quanto Mahatma Gandhi, Salvador Allende, François Mitterrand, Nelson Mandela, Barack Obama, Mário Soares e José Pepe Mujica (foto). Algo em comum os define: eram estadistas, sujeitos de espírito republicano e democrático, cujas palavras alcançavam o tom da aproximação. Acima de tudo, falavam quando necessário, permitindo que a vida em seus países existisse independentemente deles.
No Brasil contemporâneo, Alberto só vê bizarrice nas palavras de quem acredita governá-lo. Todo dia, ao abrir o jornal pela manhã, espera pela bazófia do dia anterior, a repercussão envergonhada, a chacota de quem prefere um riso desesperado a um choro desesperançoso. Nada escapa à picardia de faixa verde e amarela: meio ambiente, educação, saúde, emprego, renda, aposentadoria, literatura, cinema, sociologia. Ele opina sobre tudo e demonstra não saber de nada que valha a pena e não cause crescentes constrangimentos. A confusão de Alberto ia da impressão de pura tosquice até a de um projeto de país, cujo cerne antecipa e escancara a mais dramática das distopias.
Vídeos angustiantes proliferam na TV e na internet: armas montadas com dedos infantis, censura a diretores de institutos de pesquisa, questionamento de números aceitos por todo o mundo (tão evidentes quanto a falta de filosofia na cabeça do guru da nação), empostação de falsa fé, empulhação prática e teórica. Enfim, o horror, o horror.
Alberto admite se entregar à tristeza. Lembra-se, milésimos de segundos depois, da beleza dos netos e bisnetos, da poesia de sua profissão de sapateiro, da coerência lúcida com que conduziu a vida, do mar, do pôr-do-sol, do beijo que anuncia amores e amantes em toda a parte, para sempre. O que um mandatário que erra concordância elementar e profere palavras de baixíssimo nível pode fazer contra tudo isso? Nada, se Alberto seguir em frente, sonhando e lutando, deixando no mundo sua marca. Ele tem razão: a história nunca acaba. Logo será bem melhor.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL - [email protected]


