Enantiotropia
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quarta-feira, 09 de setembro de 2020
Marco Rossi 
Em conversas com meu filho, que vai completar 14 anos e está concluindo o Ensino Fundamental II, enfatizo a necessidade de autonomia da consciência. Digo que é fundamental exercitar o pensamento independente e avesso a esquemas pré-concebidos. Em qualquer tempo e em todos os lugares, essa me parece uma lição indispensável. Atualmente, em meio a tantos retrocessos ético-políticos, tornou-se um ponto de equilíbrio.
Distribuem-se a torto e a direito pacotes prontos de visões de mundo, estimulando um tipo de consumo integral. Ou se leva um combo de frases feitas e respostas definitivas, ou não se leva nada. Aqueles que se rebelam e insistem em tensionar “verdades” e “mentiras”, de um modo ou de outro, são lançados para as extremidades dos submundos ideológicos.
Recordo ao João Gabriel, meu “pequeno” – que já me encara sem erguer os olhos –, que para alguns na extrema-esquerda eu não passo de um liberal exaltado, um típico representante da “esquerda colorida”, fútil e pós-moderna. No limite, para os que declaram respeito a mim, sou um social-democrata, um reformista, um leitor da equivocada Hannah Arendt e idólatra da democracia burguesa. Na outra extremidade, os representantes da direita me chamam de “stalinista” ou jacobino. Não disfarço a satisfação: meu álbum de figurinhas está completo faz tempo.

Existe uma palavra interessante para analisar esse estranho fenômeno: enantiotropia. Da fusão das expressões gregas “enantio” (contrário) e “tropia” (mudança), refere-se à propriedade de substâncias que se apresentam, distintas e estáveis, em polos opostos dos espaços de transição. Sob determinadas condições de temperatura, entretanto, podem se tornar reversíveis, transformando-se uma na outra.
Não é raro encontrar ex-comunistas que viraram católicos reacionários. E há um bom tanto de ex-direitistas (oportunistas?) surfando na onda de movimentos progressistas. Quanto mais intolerante e fanático for o sujeito (isto é: quanto mais estreita for sua mentalidade), mais rápida e repentina será sua “mágica” conversão. É batata.
Previno meu filho em relação a esses pensamentos franqueados, que vêm lacrados e só podem ser abertos pelos fabricantes. E não deixo de alertá-lo: o preço de um pensamento livre e autônomo, que não terá medo de enfrentar a preguiça de “massas digitais” e de indivíduos que terceirizam razão e emoção, é salgado e vítima constante da enantiotropia.
Mas faço questão de inspirar João: reitero que há, sim, uma solidão inerente à vida de espíritos livres. Uma experiência, contudo, que encontra conforto num velho ensinamento do escocês Adam Smith: “A aprovação judiciosa e ponderada de um único sábio proporciona mais satisfação sincera do que todos os ruidosos aplausos de dez mil admiradores ignorantes, ainda que entusiásticos”.
Admiradores e detratores, decerto.


