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Londrina

A CIDADE FUTURA

m de leitura Atualizado em 06/07/2022, 00:11

Efeito Mandela à brasileira

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de julho de 2022

Marco A. Rossi/ especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

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Em uma de suas mais recentes colunas em “O Globo”, o escritor angolano José Eduardo Agualusa fala do “efeito Mandela”, um compartilhamento de memórias falsas que passa para a história e é compartilhado por muita gente. O autor de “Os vivos e os outros”, para ilustrar o conceito, reflete acerca das estranhas memórias que uma série de TV traz à tona sobre a década de 1980. As memórias não corresponderiam à realidade, embora sejam assumidas por inúmeras pessoas.

Foi a pesquisadora Fiona Broome quem cunhou a expressão. Ela observou que, em 1990, muitos diziam que Nelson Mandela havia morrido na prisão, na África do Sul. É de pasmar que até hoje tal crença se dissemine, ainda que a história oficial registre que Mandela foi eleito presidente de seu país, acabando com o cruel “apartheid”, e só tenha morrido 23 anos após sua saída – vivo! – da prisão.

O Brasil é um lugar extremamente suscetível ao “efeito Mandela”. Por aqui, muitas memórias coletivas são criações fantasmagóricas, frutos de mentiras contadas aos quatro ventos. Já no início da República, acreditem se quiser, cantava-se (literalmente) que o país caminhava tão bem que era de duvidar que um dia a chaga da escravidão houvesse existido entre nós. A própria República, que não passou de uma má quartelada, é registrada como feito heroico e popular, resultado de muitas lutas e nobres aspirações.

Essas duas mentiras – compartilhadas como memórias falsas por mais de um século! – explicam por que o racismo estrutural não se assume no Brasil e os militares não largam o osso do poder, assediando-o sem cessar. Sabemos que a escravidão nos marca até hoje, bem como é de amplo conhecimento que militares sempre estiveram à sombra do poder político no país, conquanto não seja esse, de fato e de direito, seu lugar. Entre nós, o “efeito Mandela” não tem a inocência de uma série de TV.

Como consequência dessas falsas memórias compartilhadas, criou-se a ideia de que nossa formação social foi pacífica e aliada a uma noção de progresso generalizado. Todos, sem exceção, teríamos nos beneficiado das transformações pelas quais passou o país desde o advento da Independência, em 1822. Esse extenso capítulo de nosso “efeito Mandela” oculta a violência praticada contra negros e indígenas, bem como contra as mulheres, os nordestinos e as minorias de uma forma geral e bem contundente. Além disso, a ordem e o progresso alcançam pouca gente no território nacional; a maior parte da população vive imersa em diversas camadas de desigualdade e exclusão. Por incrível que seja, o “efeito Mandela” à brasileira ignora a fome, a repressão oficial, os desarranjos políticos, a insistência dos compadrios culturais, o pouco caso com a esfera pública e, para coroar a miséria, o passado de ditaduras e sua influência no jeito de ser brasileiro.

Em tempos de mentiras que se apossam das aparências da verdade, é mister superar o “efeito Mandela” de nossa história – suas consequências mantêm de pé o que há de pior em nossa trajetória.

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