O italiano Antonio Gramsci (1891-1937) distinguia a grande da pequena política. Enquanto a grande política se orientava por questões de fôlego, relacionadas com a criação e a destruição de estruturas sociais, sua correspondente apequenada prendia-se a miudezas, intrigas, debates sem ideias, opiniões sem lastro.

Imagem ilustrativa da imagem É tempo da grande política
| Foto: Shutterstock

A pequena política tem enormes habilidades para se tornar hegemônica, isto é, ocupar o centro do debate de ideias e mobilizar condutas em prol de projetos descabidos de mundo. Para tanto, conta com o consenso passivo de cidadãos frágeis, despolitizados, preocupados exclusivamente com moralismos e privatismos, convencidos de que, para combater ameaças fantasmas, a mentira e o absurdo podem ser recrutados para a esfera pública.

No reinado da pequena política, o senso comum é raso e irascível, predispõem-se à manipulação da opinião geral e não esconde detestar espíritos coletivos. O senso comum, nesses termos, muito antes de ser o arquétipo das impressões individuais reunidas em torno de certos valores e tradições, é amedrontador. Poupa suas energias no nacionalismo de fronteiras, no ódio à diversidade e à inteligência, na irreflexividade, na contestação de que a vida social é feita de contradições. Assim, o senso se faz incomum, negligente, alheio ao óbvio da história e às conquistas da humanidade. Nos seus casos mais histriônicos, refuta a ciência, os direitos humanos, a saga democrática e até o humor que faz pensar e rir (nessa ordem).

O Brasil é um campo de testes da pequena política. No passado, velhas elites ensinaram a instrumentalizar a vida pública em favor dos interesses privados; no presente, sob disfarce pós-moderno, via redes sociais e benesses da sociedade de consumo, as velhas e as novas elites tornam funcional a letargia das classes intermediárias, valendo-se de paus-mandados no Estado, no mercado e na imprensa para disseminar suas aldrabices. Os ensinamentos do passado ganham, então, contornos de requinte, ingredientes aparentemente sofisticados, falas mansas, olhares crédulos: o objetivo é escamotear dados e histórias, reescrevendo tudo, sob permissão do consenso passivo que nega o conflito e criminaliza as resistências. Gramsci, o comunista sardo, ajuda bastante a entender e desmascarar essas estratégias de dominação. Por isso, é tão criticado, apesar de nunca ser lido. Hegemonia, entenderam?

Combater as esquerdas, desprestigiar as ciências humanas e relativizar o fascismo da autoconsciência; censurar professores, rechaçar ideias publicitárias que sejam do século 21 e desconstruir direitos; enaltecer milícias, desmontar políticas públicas, acelerar o envenenamento de alimentos e a destruição do meio ambiente; mentir à frente de um teleprompter (tropeçando nas sílabas e combinações de palavras), cobiçar terras indígenas e quilombolas para ofertá-las e empreiteiras “mui amigas”; surrupiar reservas de trabalhadores, banir o bom senso do território nacional e aplaudir uma bizarra besta inumana e seus ridículos seguidores como exemplos de “pensadores” – nada disso é aleatório e faz parte da pequena política que se quer grande no País, incensada por aventureiros que há bom tempo vislumbram o poder e o alcançaram golpeando pelas costas a ideia mais elementar de civilização.

Uma mentalidade autoritária bastante presente na formação sociocultural brasileira permitiu que trevas se posicionassem, hoje, como protagonistas num tempo que se julgava esclarecido. É como se os ideais iluministas nunca tivessem atravessado o Atlântico, nem os valores renascentistas, nem os sinais das lutas anticoloniais que por aqui e em todo o mundo subjugado se realizaram em favor da autodeterminação dos povos.

Combater o consenso passivo (que vive e se reproduz abaixo do senso comum), ativando afetos e mobilizando ações de resistência, almejando novas hegemonias e sonhando com a grande política. Disso dependerá o futuro, que, aliás, começou faz bom tempo.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]

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