Em 30 de abril de 1925, na paulistana Folha da Noite, aparecia Juca Pato, personagem do cartunista Benedito Bastos Barreto, o Belmonte. O sucesso logo abraçou a novidade. Até 1947, ano da morte de seu idealizador, Juca Pato foi o verdadeiro porta-voz do povo.

De humor ácido e temperamento inquieto, Juca Pato denunciava a burocracia, a mentira na política e o eterno atraso do país, marcado desde sempre por censura, autoritarismo e indecente desigualdade social. Fruto de uma época em que o Brasil insistia em ser uma inteligente e promissora nação, Juca Pato representava o que havia de mais elevado na alma brasileira. Nunca mais seríamos iguais, uma vez que havíamos provado que poderíamos ser bem melhores.

.
. | Foto: iStock

Em 1962, a União Brasileira de Escritores (UBE) instituiu o Troféu Juca Pato para agraciar o Intelectual do Ano. A iniciativa – uma justa homenagem àquele sujeito franzino, de óculos com aro de tartaruga, cabeça calva e um indefectível traje a rigor, que habitou com elegância as páginas dos jornais durante mais de duas décadas – já consagrou nomes como Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade, Jacob Gorender, Antonio Candido, Paulo Evaristo Arns, Lygia Fagundes Telles e Milton Hatoum, entre tantos outros.

Na semana passada, enquanto o mundo assistia, atônito, ao discurso do presidente da República na Organização das Nações Unidas (ONU), a União Brasileira de Escritores anunciava que o líder indígena Ailton Krenak era o contemplado com o 62.° Troféu Juca Pato, tornando-se, assim, o intelectual do ano de 2020.

Mineiro, nascido à beira do Rio Doce, em 1953, Krenak alfabetizou-se tardiamente aqui no Paraná, onde aprendeu que a política pode ser valiosa na luta pelos direitos dos povos indígenas e em defesa do meio ambiente. Como escritor, publicou recentemente “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” e “A Vida Não é Útil”, dois opúsculos de imensa sabedoria e extrema sensibilidade.

Diatribes deste curioso tempo histórico: de um lado, na TV, mentiras sobre a devastação criminosa da Amazônia e do Pantanal, associadas a implausíveis palavras de ordem tentando justificar a inanição de um temerário gabinete político, que acumula pilhas de mortos sobre os documentos diários da barbárie, do negacionismo e da infame velha política disfarçada de patriotada barata, interessante somente ao seu fã-clube de fanáticos inglórios. De outro lado, no cantinho discreto dos sítios de notícias, a imagem serena de Ailton Krenak como Intelectual do Ano – de um ano, é preciso lembrar, que continua necessitando de esperança para dar lugar a um novo tempo, mais bonito, feito de gente melhor.

.
. | Foto: iStock

Dois Brasis. Duas imagens. Duas trajetórias distintas. E aí, de que lado você se sente mais à vontade? Qual dessas duas imagens você colocaria no porta-retrato da história de sua vida? Essa escolha, cujas opções se excluem mutuamente, diz e dirá muito sobre você.

Eu, humildemente, voto com o relator, o Juca Pato.

mockup