O economista Marcio Pochmann, da Universidade de Campinas (UNICAMP), criou um belo neologismo para pensar o Brasil contemporâneo: “desmodernização”. Trata-se da constatação atual de destruição da esfera pública e também das instituições sociais. Em nome de um passado mítico ou de um futuro livre de inimigos, vive-se no país um verdadeiro desmonte de tudo que existe. A continuar assim, sobrará bem pouco para contar história.

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A ideia de “desmodernizar” ataca, sobretudo, aquilo que oferece sentido a uma nação moderna: educação, saúde, ciência, pesquisa, proteção ambiental etc. Nunca antes esses quadros da vida social foram tão agredidos com cortes de investimentos, fake news, desdém e declarações de guerras inúteis. Atribui-se a professores e cientistas a responsabilidade por um mal-estar que só existe na cabeça de fanáticos, firmemente convencidos de que a mentira pode se tornar verdade se for repetida à exaustão.

No Brasil, é verdade, todo avanço sempre se combinou com alguma medida de atraso. Para nascer o novo, o velho tinha de emprestar consentimento e definir os limites das mudanças almejadas. É assim que perduram entulhos autoritários na Constituição de 1988 e, também, sobrevivem latifúndios e senhores de terra num país que encarou seu grande processo de industrialização e urbanização ainda na primeira metade do século 20.

Atualmente, contudo, a coisa é um pouco diferente. Quem ocupa as esferas de poder não se vê obrigado a disfarçar seus sentimentos autoritários nem suas verdadeiras impressões sobre a democracia. Esbraveja-se em público contra a soberania popular sem medo; mente-se sobre a intenção das próprias atitudes em meio a galhofas e outros discursos de cumplicidade; cria-se um complexo de falsidade nas redes sociais e até na velha mídia, nas quais, em vez da serenidade no tratamento dos fatos, xinga-se e humilha-se todo mundo. O velho, definitivamente, não se esconde mais – valendo-se, em muitos momentos, de parecer a verdadeira novidade.

Institutos de pesquisa e produção científica são desmentidos em público por aquele que se considera o próprio poder encarnado. Em meio ao cinismo e à desfaçatez, o Brasil vai sendo corroído de dentro para fora, como se vermes lhe arrancassem as entranhas e a pele. No passado, as democracias temiam os inimigos externos, como o fascismo e o nazismo. Hoje, uma espécie de neofascismo abocanhou a vida democrática e a paralisou, conquistando aplausos e criando uma inaudita legião de seguidores.

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