Constelações
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quinta-feira, 23 de julho de 2020
Marco A. Rossi 
Os mistérios do universo inquietam os seres humanos desde a aurora dos tempos. A busca pelo deciframento de tudo talvez seja a maior utopia do gênero humano. No fundo, todos sabemos da impossibilidade de o conhecimento se sobrepor à realidade de modo integral e definitivo. Haverá sempre algo novo entre céu, mar e terra, para muito além do que desconfiam nossas vãs filosofias.

É nesse sentido que a utopia da sapiência plena se revela tão importante. Ainda que seja impossível alcançá-la – e só tolos diriam o contrário –, ela se assemelha a constelações, cuja luz guia pensamentos e passos.
Os povos sumérios, uns 4000 anos antes de Cristo, já traçavam constelações, esses agrupamentos imaginários de estrelas. Assim, vistas a olho nu ou com o auxílio de poderosas lentes, as estrelas e constelações habitam desde sempre a face mais humana da Terra, através de mitos e narrativas cujos destaques são histórias extraordinárias protagonizadas por deuses, heróis e criaturas fantásticas. A imaginação, nesse sentido, está a serviço tanto da ciência quanto da metafísica.
De onde vem e para onde vai o universo? Nós, habitantes do planeta Terra, estamos sozinhos na vastidão do espaço? O que nos separa de outras galáxias e eventuais formas de vida? Serão alguns anos-luz ou apenas nossa capacidade de fantasiar e buscar companhia na solidão intrínseca à magnitude do universo?
Diferentes povos – da pré-história à pós-modernidade – nomeiam constelações e espelham nas alturas seus desejos mais nobres e também seus delírios mais sórdidos. As estrelas, assim, se unem por linhas imaginárias, ilustrações que existem dentro da cabeça e, com as expressões da vida social, se metamorfoseiam em imagens compartilhadas, que atravessam gerações e dão o tom da experiência humana. Talvez daí tenha surgido a expressão: “O céu é o limite”.
Em sua célebre tese, “As origens do drama trágico alemão”, de 1924, Walter Benjamin afirma: “As ideias se relacionam com as coisas como as constelações com as estrelas”. Há uma iluminância recíproca entre ideias, do mesmo modo como elas também podem obscurecer umas às outras. Nesse sentido, mentalidades são como constelações: inspiram, legitimam e perpetuam mitos e narrativas, ideias e práticas.
Para Benjamin, numa análise genial acerca da maneira como se organiza a sociedade em tempos mistos de barbárie e esperança, os aspectos constelares das ideias podem incitar o medo, promover o ódio e esboçar a destruição. Mas podem também, por meio de outros rascunhos no infinito, acelerar empatias, favorecer inteligências, estimular resistências. Trata-se da dialética insuperável do relacionamento das estrelas, na qual não existem subordinações nem primazias – cada estrela é parte integrante de um todo complexo e gigantesco, que garante a expansão da vida.
As ideias, como as estrelas, estão interligadas. As expressões da razão e da sensibilidade compõem a dinâmica da vida. Assim, tudo é política, nada escapa à economia, todos expressam cultura, ninguém é imune às paixões.
Viver é olhar para o céu, reunir estrelas, criar constelações e fazer a história. Tudo isso. E nada mais.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL - [email protected]


