Os dias começavam entre notícias e opiniões para Alberto. O velho hábito de ler dois jornais toda manhã o acompanhava desde a juventude, época em que o pai o levava para a orla no intuito de concorrer a um lugar em frente aos periódicos pendurados nas bancas. De lá para cá, Alberto alternava a leitura de um jornal mais “progressista” para um outro talvez mais “conservador”. No fundo, sabia Alberto, a diferença era apenas de tom.

Imagem ilustrativa da imagem Consciência possível
| Foto: Hadrian/Shutterstock.com

Depois de um fim de semana tranquilo junto aos netos – com direito a bolo de cenoura e chá de jasmim –, Alberto começaria a semana tentando entender o que as ruas diziam sobre o destino do Brasil. O mês andava agitado: em nome de um desejado futuro, diferentes atores tomaram os espaços públicos em muitas cidades do País, uns exigindo democracia, outros nem tanto; alguns querendo investimentos naquilo que é essencial e inadiável; outros erguendo bandeiras de adulação e agachismo. A desproporção, como no tom dos jornais que Alberto lia, era interpretativa, ou seja, referia-se à “consciência possível”.

Alberto não era ingênuo. Sua vida quase secular o impedia de acreditar em objetividade e neutralidade no trato dos fatos. Assim como ele tinha lado, todos também tinham. Sempre que ouvia alguém dizer que algo não era por A ou B, mas sim por todo o alfabeto, sentia um horrível frio na espinha, recordando a incontornável semelhança desse tipo de discurso com o fascismo, preconceituoso e violento, feito em nome da “nação”. A defesa da fronteira, que em si já denota estar em jogo somente uma parte da realidade, é pródiga em fantasias que ocultam ódios e más intenções. Nos jornais que lia, Alberto conhecia um bom tanto de gente assim, dissimulada, que orava aos céus enquanto piscava, de modo maroto, para o demônio (algo como ser “liberal em economia” e “conservador em costumes” ou aberrações afins).

Qual o nível de “consciência possível” numa época contaminada pelos extremismos? Como falar em simples “consciência” quando debates estão suspensos, palavras só se trocam entre compadres e convertidos, sentimentos de destruição do outro alimentam teorias conspiratórias e elegem bufões à condição de intelectuais? Como ainda acreditar em inteligência num momento em que a história se reduz a disputas pela pequena política? Vale o endosso: quando as ruas são preenchidas para legitimar quem está no poder, tropeçando em inabilidades, multiplicando sandices e disparando contra alvos inexistentes (tudo para tentar esconder que não há um projeto democrático e razoável de país), o fracasso é iminente. Mas o pior é a análise das partes que se dizem representar o todo. Alberto ria e engasgava ao mesmo tempo. Pior cego seria ainda aquele que não quer ver? Ou teria se metamorfoseado naquele que vê e diz que não vê só para ter razão quando a própria razão já desertou faz tempo? Numa vasta tradição golpista, nada é de espantar.

Alberto, após uma leitura cada vez mais rápida dos jornais – além de fininhos, os impressos estavam ficando muito previsíveis –, partia para seu ateliê. O bom sapateiro acreditava no trabalho, na capacidade artesã de tecer a vida. Havia um bom tanto de serviço à sua espera naquela semana. Entre uma pequena obra de arte e outra, orientava seus netos para a vida democrática, cheia de lutas e exigências, na qual a “consciência possível” tem de ser, no mínimo, a consciência cidadã.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]

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