Autonomia intelectual
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021
Marco Rossi 
Num ensaio publicado na década de 1980, “O argumento liberal”, José Guilherme Merquior, citando a sagacidade de Leszek Kolakowski, afirma que é, ao mesmo tempo, conservador, liberal e socialista. Os conservadores estariam certos quando afirmam que nem tudo tem causas sociais, sendo improvável que soluções de engenharia consertem o mundo; já os liberais estariam repletos de razão ao sustentarem que as liberdades individuais não podem ser cerceadas pelo Estado de maneira autoritária e conveniente; por sua vez, os socialistas, ao defenderem amplas reformas sociais para tornar mais igualitária a convivência humana, não poderiam ser refutados.
Gosto dessa passagem do texto de Merquior, que, aliás, faz muita falta no debate público contemporâneo. Fujo de rotulações e detesto quando me flagro sendo excessivamente unilateral ou pouco afetado pelo diálogo com a diferença. O francês Edgar Morin, na altura de sua idade centenária, também diz algo parecido na epígrafe de seu livro “A minha esquerda”: “Sou um direitista de esquerda: direitista porque tenho um senso muito aguçado do respeito às liberdades, mas ao mesmo tempo esquerdista no sentido de que tenho a convicção de que nossa sociedade requer transformações profundas e radicais. Tornei-me um conservador revolucionário. É preciso revolucionar tudo, mas conservando os tesouros de nossa cultura”.

Entender e apreciar as definições trazidas por Merquior e Morin não significa desdenhar das diferenças entre direita e esquerda, liberalismo, conservadorismo e socialismo. De maneira nenhuma. O que essas “falas” exprimem é que não faz sentido apegar-se a essas rotulações como se delas dependesse a compreensão do mundo ou a ação correta a empreender. O momento contemporâneo de polarizações e abismos ideológicos reforça a adesão às tribos, o que compromete a riqueza daquilo que se pode aprender coletivamente.
Lembro-me de episódios típicos de nosso tempo. Anos atrás, nos corredores da Universidade, notei um burburinho cheio de exaltações num grupo de estudantes. Chegando perto, constatei que a indignação de alguns deles estava relacionada com o fato de terem de ler “Casa Grande & Senzala”, um clássico do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, acusado pelo grupo de ser um “direitista”. Em outra ocasião, flagrei um grupelho igualmente exaltado querendo boicotar uma professora que exagerava nas doses “marxistas” durante suas aulas.
Qual a razão disso tudo? Onde foram parar a empatia, o respeito pelo trabalho dos outros, a rica abertura à diferença?
Sinto-me perto da lição que se pode extrair das “falas” de Merquior e Morin. Não me vejo adepto de nenhuma tribo e me percebo incomodado quando imagino fazer coro com palavras de ordem ou lugares-comuns. No fundo o que as palavras enunciadas por Merquior e Morin revelam é que, fora de uma visão alargada de mundo, tudo se apequena e se faz mais difícil. Primar pela liberdade, defendendo ideias próprias sem rótulos nem acenos diretos a este ou aquele grupo, é modo muito eficaz de escapar ao fanatismo e conquistar a autonomia intelectual.
Como dizem os italianos, “se non è vero, è molto ben trovato”.


