Atitude blasé
“Os loucos pela fama agem sempre em bando, revezando-se em demonstrações constrangedoras de raiva e total imprecisão teórico-conceitual”
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de julho de 2019
“Os loucos pela fama agem sempre em bando, revezando-se em demonstrações constrangedoras de raiva e total imprecisão teórico-conceitual”
Marco A. Rossi 
Logo pela manhã, Alberto costuma se deter em lembranças da sua extensa militância política. Ainda garoto de calças curtas, saíra da resistência ao Estado Novo e, no calor da juventude, lutara contra a ditadura civil-militar. Experimentou a clandestinidade e o exílio; sofreu cruenta tortura e amargou a perda de amigos corajosos; conheceu a experiência de apátrida e, ao mesmo tempo, fez-se cidadão do mundo. Alberto pensava nisso tudo com firmeza, ciente de que era uma lição diária de formação do caráter.

Uma das imagens que lhe sobressaíam de vez em quando era a de um ex-colega de andanças anarquistas. Identificava-o como o garoto do dedo em riste, sempre vaidoso e bem menos brilhante do que supunha ser. Alberto soube que o ex-colega, após ter denunciado antigos companheiros à repressão, havia se tornado um proselitista das forças armadas e defensor da ordem livre do mercado, vociferando contra greves e resistências. Chegou a ser ministro informal de um patético governo que durou pouco e sobreviveu à custa de algumas paródias dominicais dos desfiles de 7 de setembro. O ex-colega, então, caiu em desgraça e desapareceu, ignorado pelos que lhe davam milhares de “likes” e “coraçõezinhos” nas redes sociais. Robôs verde-amarelos não costumam comparecer a cortejos fúnebres.
Entre um gole e outro de café, Alberto relia mentalmente o sociólogo alemão Georg Simmel (1858-1918), cuja ideia de “atitude blasé” lhe parecia muito atual. Simmel argumentava que, em face dos crescentes estímulos da vida moderna, os indivíduos, a fim de proteger a inteligência, precisavam adotar uma postura de indiferença ante a avalanche de discursos e explicações do mundo. A “atitude blasé” seria, nesse sentido, uma carta na manga em favor do que ainda há de humano nos sujeitos sociais em tempos de galhardias e provocações sem fim, mentiras e incitações à discórdia. Alberto insistia na necessidade de um olhar distante em relação ao obscuro planeta internet.
As caixas de comentários em sites de revistas, jornais ou portais de informação eram vulcões em erupção no centro das hipermodernas selvas urbanas. Alberto as evitava e pedia a todos que se mantivessem afastados daquela terra de desocupados em busca de 15 segundos de fama. Faltava de tudo ali (bons modos, conhecimento da língua portuguesa, sensibilidade etc.), mas era mais evidente a incapacidade quase generalizada de interpretar texto. A notícia ia para um lado, os comentários para outro; quando se tratava de colunistas ou articulistas, as raivosas intervenções só se referiam ao que não havia sido escrito pelos autores. Um espetáculo de horrores. Alberto, quando não conseguia evitar a leitura de um desses comentários, transformava sua “atitude blasé” em riso aberto. O humor continuava sendo um santo remédio diante das sucessivas alusões à barbárie.
Em suas “opiniões” (tudo se resume a isso, não é mesmo?), gente cega pela evidência efêmera mete-se em tudo. “Coachs” de candidatos a filósofos e cientistas políticos estão sempre prontos para entrar em ação. Os loucos pela fama agem sempre em bando, revezando-se em demonstrações constrangedoras de raiva e total imprecisão teórico-conceitual. Alberto, em vez de perder tempo com essa triste realidade virtual, aciona sua “atitude blasé”, dá mais um gole no café quentinho e volta a pensar seriamente no livro que lhe fará companhia naquele novo e belo dia. Afinal, o inferno – que ele não irá conhecer – está cheio de ex-colegas de dedo em riste.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


