A CIDADE FUTURA -

As histórias que (não) nos contam


O movimento da moda é cancelar. O verbo, sabemos, é transitivo direto, exige complemento. Cancelar quem ou o quê? Por bons ou mal motivos, quase todo o mundo diz conhecer alguma pessoa ou instituição que merece ser cancelada. A questão fundamental continua intrigante: por quê?


Admito, constrangido, que o mundo que nos formou – que existiu até ontem à noite – era bastante elitista e preconceituoso. Essa história de homens brancos, heterossexuais, ricos ou remediados, com a mentalidade forjada nas relações sociais hegemonizadas pela cultura dominante ocidental, não tem nada de retórica. Ela corresponde a um fio histórico irrefutável: foram homens brancos, abastados ou a serviço do capital, crentes na própria superioridade, ditos amantes do sexo oposto (que foi reduzido às submissões violentas da carne), que colonizaram a realidade, dizendo tudo sobre o certo e o errado, o justo e o injusto, o belo e o feio. Quem se dispusesse a questioná-los era “cancelado”.




É preciso pensar historicamente. Entender o que se passa agora pressupõe reflexões sobre o que está consumado, integrado às formas de ser e viver. Nesse sentido, cancelar é rotina entre os poderosos: populações originárias, mulheres, estrangeiros de toda sorte e dissidentes políticos são cancelados desde sempre, sem alardes, como se fosse natural retirá-los de cena para defender ideais “certos”, “justos” e “belos”. Sob a mesma lógica, preciosidades como a liberdade, a democracia, a diversidade, o diálogo, a arte e a ciência apanham muito daqueles que se julgam pertencentes à comunidade moral do “bem”.

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Séculos de colonialismo e imperialismo limitaram significativamente as opções políticas e culturais das sociedades humanas. O cancelamento não deu trégua: devastou o meio ambiente, escravizou corpos, domesticou mentes e corações. O discurso do “civilizado” – sempre esculpido pelo fogo dos canhões – definiu quem podia e devia ser visto, ouvido, levado a sério. Ao mesmo tempo, censurou, perseguiu e matou quem não aceitasse ser visto, ouvido ou percebido como “inferior”. Cancelar o outro tem imenso lastro histórico.


Afirmei, contudo, que o mundo dessa gente que se imagina “elevada” durou até a noite de ontem. É claro que ricos e iludidos continuam a exercer seu ódio contra povos, classes, grupos e indivíduos. Essa gente está em toda a parte e constitui expressiva parcela da população. Ocorre, no entanto, que os silenciados da história conquistaram voz; os vencidos conseguiram agendar uma revanche; os excluídos e oprimidos podem, hoje, narrar suas experiências, denunciar seus algozes, reescrever os livros dos heróis da “pátria” ou da “humanidade”.


E de que são acusados? De quererem cancelar aquilo que sempre foi “certo”, “justo” e “belo”. Curioso, não? Aqueles que são amplamente favorecidos pelos cancelamentos de ontem e anteontem, como seus legítimos herdeiros, reclamam agora que estão sendo... cancelados!



De fato, o tempo não para. Ainda bem.

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