Anjos necessários
"Há um quê de intelectual em todos os grandes seres que ilustram e dão sentido à trajetória comum dos humanos"
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de outubro de 2019
"Há um quê de intelectual em todos os grandes seres que ilustram e dão sentido à trajetória comum dos humanos"
Marco A. Rossi 
Para Leandro Konder (1936-2014), por tudo!
Robert Alter, nascido em 1935, em Nova Iorque, é professor de hebraico na Universidade da Califórnia e um dos mais prestigiados estudiosos da Bíblia em todo o mundo. Referindo-se àquelas pessoas de luz própria, que nunca se ofuscam e sempre oferecem conforto aos que estão em seu entorno, cunhou a expressão “anjos necessários”.

Há intelectuais, por exemplo, que podem ser considerados “anjos necessários”. Em suas aulas, pesquisas e atividades acadêmicas costumam distribuir esperança e, ao mesmo tempo, servir o mundo de gentileza crítica, análises poderosas sobre estruturas e contextos, conflitos e possibilidades de novos consensos. Graças à luz que irradiam sem artifícios, esses intelectuais valorizam e praticam o que realmente se espera deles: diálogo, reconhecimento do outro e de suas diferenças e, acima de tudo, humildade para entender que o real é muito maior do que a capacidade humana de detê-lo, simplificá-lo, encerrá-lo em lugares-comuns e conveniências particulares.
Cada pessoa é capaz de escolher seu “anjo necessário” e justificar sua predileção. Em geral, esses seres de luz tão peculiar auxiliam nas leituras do mundo, aliviam o cansaço da mente e apontam pistas para os relacionamentos amorosos, profissionais e cidadãos. Um “anjo necessário” empresta seus sentidos para que se possam ver, ouvir, tocar, cheirar e degustar as múltiplas dimensões da vida. Eles também escrevem, conversam com pequenos e grandes públicos em conferências, participam do debate público nos meios de comunicação social e, principalmente, deixam sua obra e seu exemplo individual como herança. Nesse sentido, são seres singulares-universais, presenças permanentes.
Nem todo “anjo necessário” é um intelectual. Seres que tornam a vida mais bonita e elevam a altíssimos patamares a fé no humano podem ser encarados no pai que abraça o filho após um gol numa pelada de campinho; na mãe que, com dois guarda-chuvas a tiracolo, sai em disparada para buscar seus eternos “pequenos” na escola em meio a uma tempestade; no educador que indica livros, discos e filmes que serão decisivos na formação de jovens e adultos; no vendedor de sorvetes que nunca se esquece do picolé favorito de seus clientes mais fiéis; no/na amante que prepara cada encontro como se fosse o início de tudo, aquele instante em que, mais uma vez, ocorrerá o melhor primeiro beijo de todos os tempos.
Há um quê de intelectual em todos os grandes seres que ilustram e dão sentido à trajetória comum dos humanos. Se um intelectual é aquele que deve dominar os recursos necessários a bons argumentos e convincentes explicações, os “anjos necessários” são todos os sujeitos que, como “intelectuais orgânicos” da vida, querem entender melhor o mundo para aproveitá-lo em toda a sua extensão, compartilhando aquilo de mais valioso com todos à volta.
“Anjos necessários” são os intelectuais da filosofia, das ciências sociais e das dicas de onde passear com as pessoas amadas, de como alcançar a felicidade sem cair nas tentações da mercadoria e do espetáculo; são também os homens e as mulheres que, na sua arte, fazem das tripas coração para sensibilizar e aproximar gente que se afasta por sonhar o sonho errado. Há um “anjo necessário”, neste momento, lutando pela floresta amazônica, pela liberdade de professores e cientistas, por recursos para a cultura, pelo direito ao trabalho e ao descanso seguro, por um belo fim de semana para você, repleto de doces afetos e deliciosas distrações poéticas. Os “anjos necessários”, aliás, nunca morrem – eles ficam ali, pertinho da memória e da gratidão.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


