Amar e mudar as coisas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de agosto de 2020
Marco A. Rossi 
O sociólogo espanhol Manuel Castells publicou em 2012 o livro “Redes de Indignação e Esperança”. O objetivo era compreender a gênese dos novos movimentos sociais que ocuparam as ruas de todo o mundo na primeira década deste século 21. Castells intui em sua obra identificar quais padrões os movimentos contemporâneos têm em comum com todos as manifestações de inquietude da história.

Não há mudança sem que haja disposição para enfrentar barreiras. Algo precisa servir de “motor da história”. A transformação de valores, mentalidades e instituições, numa sociedade democrática, depende do caráter substantivo dos movimentos de cidadania. Direitos só são preservados ou conquistados com ampla participação política da população. A ideia de soberania popular, hoje e sempre, não é retórica; é prática, envolvente, decisiva. E para Castells ela depende de uma “explosão de emoções”.
O medo de que a vida possa se despedaçar organiza o pensamento e coloca os humanos frente a frente, convencidos da necessidade de superar as variadas formas de dominação social. Surge, então, um desejo irreprimível de fazer desabarem as injustiças. Esse desejo é impulsionado pela indignação, que catalisa energias, promove aproximações e nutre a coragem considerada abatida pelo medo.
Se há tanta opulência, por que persistem a fome, a miséria e a pornográfica desigualdade social? Se o planeta é enorme, por que muitos não têm lar? Se a humanidade se diz racional, por que sobram destrutividade ambiental, consumismo e egoísmo? Se é vasto o mundo das ideias, por que é tão estreita a mentalidade daqueles que se dizem porta-vozes da verdade?
Para responder a essas questões de maneira propositiva, encerrando em cada gesto um feixe de alteração no mundo real, a indignação deve produzir solidariedade, um modo radicalmente novo de os indivíduos compartilharem suas experiências. Manuel Castells resgata uma expressão tipicamente latina para ilustrar a comunhão dos novos movimentos sociais: “Juntos podemos”.
Atordoados pela financeirização da vida, que estabelece preço para tudo e todos, os movimentos sociais do século 21 operam em rede, pelas quais disseminam rapidamente propostas de mobilização coletiva e repercutem mundialmente suas pautas de reivindicação. Graças a interconectividade das linguagens de esperança, a democracia respira ideias renovadas de representação política. Castells, contudo, adverte: as redes são multimodais, uma vez que ultrapassam os limites do virtual e se espraiam pelas veredas da realidade, em escolas, fábricas, praças, núcleos de família, amizade, formação cultural etc. Por isso, são globais e locais ao mesmo tempo, constituindo, via ação comunicativa, uma identidade dialética entre o singular e o universal.
Os movimentos que emergiram das ruas deste século não querem descartar a política; querem transformá-la, oferecendo uma alternativa democrática de representação coletiva e de efetivação de uma nova cultura, em que a diversidade seja querida e a palavra, ampliada. Os movimentos sociais têm em comum, como destaca Castells, “articular mentes, criar significado e contestar o poder”. Esse é o seu bom padrão.
Marco Rossi é sociólogo e professor da UEL


